REPORTAGEM 21 A análise aprofundada sobre as dinâmicas do trabalho e os desafios críticos do setor em Portugal evidencia que “nos últimos anos, a agricultura portuguesa protagonizou uma transformação estrutural notável, tornando-se mais produtiva, mais profissional e cada vez mais tecnológica”, como sublinhou no encontro Pedro Santos, diretor-geral da CONSULAI. PRODUTIVIDADE AGRÍCOLA MAIS QUE DUPLICA, MAS FUTURO EXIGE COMPETÊNCIAS TECNOLÓGICAS Hoje a agricultura integra automação, sensores, inteligência artificial e serviços especializados. Este novo paradigma exige trabalhadores com competências técnicas e digitais, num contexto em que a tecnologia substitui tarefas manuais e potencia ganhos de eficiência. “O crescimento da atividade é brutal”, mas “temos metade da mão de obra existente há 30 anos”, essencialmente em explorações familiares, alerta Pedro Santos. Esta escassez de recursos humanos e a dificuldade em atrair talento qualificado e jovem “condicionam a sustentabilidade e a competitividade” do setor e obrigam “à necessidade de mais mão de obra estrangeira” (que representa já 40% do trabalho especializado – qualificado e apto a integrar as novas tecnologias), e “à necessidade de renovação geracional”, que é urgente. O estudo revela que, nas últimas três décadas, o volume de trabalhadores na agricultura decresceu de mais de 430 mil para cerca de 220 mil trabalhadores a tempo integral. Em contrapartida, o valor gerado pelo setor aumentou, permitindo que a produtividade mais do que duplicasse: “um reflexo da mecanização, da modernização das explorações e da reorganização empresarial que se tem vindo a registar”. O número de pessoas empregadas estabilizou entre 165 mil e 180 mil, com uma redução acentuada do trabalho familiar e um crescimento do trabalho assalariado, que representava já cerca de 40% do total em 2023, segundo os dados mais recentes do INE. Por outro lado, o peso da mão-de-obra estrangeira no setor em Portugal quadruplicou desde 2014, e “é hoje particularmente crítico para as culturas intensivas e sazonais, assegurando os picos de produção e a continuidade operacional”. Segundo a análise baseada numa abordagem integrada de fontes estatísticas oficiais, 81,5% dos trabalhadores portugueses no setor agrícola só possuem o grau do ensino básico e os estrangeiros apresentam, em média, níveis de qualificação superiores aos portugueses: 7,5% possuem cursos superior, face a 2,7% dos trabalhadores nacionais. Em termos salariais, a remuneração média agrícola cresceu cerca de 50% na última década, aproximando-se dos 1.000 euros mensais. Ainda assim, este valor permanece significativamente abaixo da média nacional (1.742 euros), o que limita a capacidade do setor para atrair talento jovem e mais qualificado, “que será imprescindível no contexto de uma agricultura cada vez mais digitalizada e de precisão”. O documento conclui igualmente que a agricultura portuguesa apresenta fortes assimetrias regionais. O Alentejo concentra mais de metade da área agrícola (54,7%), mas apenas 11,3% da mão-de-obra, refletindo um modelo altamente mecanizado. Em contraste, regiões como Algarve e Oeste destacam-se pela elevada intensidade produtiva e maior necessidade de trabalho, com produtividades superiores a 5.200 euros por hectare. O envelhecimento da força de trabalho é uma das tendências mais preocupantes: a idade média subiu de 46 anos em 1989 para 59 anos em 2023. Em paralelo, a mão-de-obra familiar caiu mais de 60%, evidenciando uma clara ausência de renovação geracional. Neste contexto, “arriscamos o abandono por desertificação humana” nos territórios rurais, defende o diretor- -geral da CONSULAI, para quem “o cooperativismo é um movimento que faz todo o sentido na agricultura”. Na sua opinião, “o futuro da agricultura em Portugal dependerá da capacidade de qualificar pessoas, integrar tecnologia e valorizar o trabalho agrícola. Sem uma resposta clara, assente na renovação geracional, em políticas públicas eficazes e realistas, em mais capacitação e organização da produção e do setor, corremos o risco de perder o dinamismo conquistado, precisamente num momento em que mais precisamos de o consolidar”.
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