VITICULTURA | OPINIÃO 32 O renascimento da vinha em Portugal: da talha ao solo vivo Romeu Martins, CEO da Adega Malápio e Vitivinicultor Portugal vive um momento único na sua história vitivinícola. Enquanto o mundo olha para o futuro em busca de resiliência climática, a viticultura nacional responde com um regresso às origens, onde a Adega Centenária Malápio e as tradições da Bairrada e do vinho de talha servem de farol para uma nova consciência produtiva. 1. O LEGADO ANCESTRAL: VINHAS MEDIEVAIS E DE TALHA A preservação da identidade começa na terra. As vinhas medievais e a tradição do vinho de talha, influenciado pelas práticas de mínima intervenção, não são apenas peças de museu; são reservatórios de biodiversidade genética. • Recuperação de castas: o foco atual não passa apenas por produzir, mas por resgatar castas autóctones esquecidas que, por natureza, estão mais adaptadas ao nosso terroir (Bairrada) e às oscilações térmicas. • O estilo da Bairrada: na Bairrada, a casta Baga exige uma compreensão profunda do solo e do clima. A recuperação de vinhas velhas nesta região é um exercício de paciência e respeito pelo ecossistema. 2. AGRICULTURA REGENERATIVA: O SOLO COMO ORGANISMO VIVO O estado-da-arte da viticultura em Portugal já não se mede apenas pelo brix da uva, mas pela saúde do microbioma do solo. A agricultura regenerativa propõe inverter a degradação dos solos convencionais através de: • Coberturas vegetais: em vez do solo despido e exposto à erosão, utilizam-se coberturas que fixam azoto e sequestram carbono. • Aumento da matéria orgânica: o abandono de herbicidas e a introdução de compostagem natural e adubos nutricionais permitem que o solo recupere a sua estrutura esponjosa, retendo mais água – vital num cenário de seca. • Biodiversidade funcional: manter intacto o ecossistema que atrai auxiliares naturais no combate a pragas. 3. O CASO DA ADEGA MALÁPIO: MANEJO DA VINHA A gestão da vinha medieval da Adega Malápio é um exemplo raro de viticultura de conservação, onde técnicas ancestrais são aplicadas com rigor científico para garantir a longevidade de um património vivo. A) A poda de respeito e renovação Ao contrário da viticultura industrial, que procura uniformidade, o manuseamento na Malápio trata cada videira como um indivíduo. • Controlo do hábito trepador: como a videira é uma trepadeira, a tendência natural é elevar-se. A gestão da vinha Malápio intervém estrategicamente através da poda de renovação, aproveitando talões mais baixos para 'baixar' a planta, cortando o ramo principal acima destes para rejuvenescer a estrutura sem perder a força da raiz centenária.
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