VITICULTURA | OPINIÃO 33 • Carga equilibrada: a opção é clara: não sobrecarregar. Utiliza-se geralmente uma vara e uma espera (um talão de reserva) por videira. Esta carga baixa garante que a planta concentre toda a sua energia e nutrientes num número limitado de cachos. • Ripagem de olhos (técnica da empa): Uma técnica distintiva é a ripagem de três olhos nas pontas das varas durante a empa. Isto obriga a videira a produzir cachos no início das varas, onde o fluxo de seiva é mais vigoroso, resultando em uvas com sabor mais concentrado e superior. B) Alta densidade e competição A vinha medieval Malápio apresenta uma densidade extraordinária de 10 mil plantas por hectare. • Luta por nutrientes: esta densidade obriga as raízes a mergulhar profundamente no solo argilo-calcário em busca de sustento. A competição entre as plantas resulta naturalmente em bagos mais pequenos, com uma relação película superior, o que confere mais cor, taninos e precursores aromáticos ao vinho. • Auto-regulação do vigor: os clones antigos presentes nesta vinha são naturalmente menos produtivos, o que, aliado à densidade, dispensa o uso de reguladores de crescimento químicos. C) Biodiversidade genética (field blend) O manuseamento desta vinha não separa as castas. Estas estão misturadas (Baga, Cercial, Cercialinho, Rabo de Ovelha, Tinta Roriz, Touriga Nacional, Maria Gomes, Bical, Bastardo e Trincadeira), o que funciona como um seguro biológico: • Resiliência: diferentes castas reagem de forma distinta a pragas ou variações climáticas, garantindo que a qualidade do lote final seja constante mesmo em anos difíceis. • Sanidade Natural: devido à estrutura da vinha e à seleção de clones, os cachos são mais arejados (menos apertados). Mesmo em anos de chuva na Bairrada, a vinha medieval mantém os seus cachos 'imaculadamente sãos', resistindo melhor à podridão do que as vinhas modernas de clones produtivos. D) Sustentabilidade e intervenção manual • Manutenção artesanal: o uso de tutores de madeira e a amarração com vime (colhido na própria vinha) reforça o ciclo circular de materiais, evitando plásticos e metais desnecessários. • Proteção cirúrgica: a intervenção fitossanitária é minimalista e preventiva. O uso de sulfato é feito apenas nos momentos críticos (quando o binómio temperatura/humidade favorece os fungos), permitindo que a vinha desenvolva as suas próprias defesas. • Solo vivo: a preparação e fertilização do solo argilo-calcário foca-se na nutrição orgânica, assegurando
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