VITICULTURA | OPINIÃO 34 que a 'melodia constante' da vinha não seja interrompida por picos de fertilização artificial. O solo regenerado é o seguro de vida dos vinhos portugueses para as próximas décadas, garantindo que adegas como a Malápio continuem a contar a história do nosso território em cada garrafa. Em suma, a gestão da Adega Malápio é uma viticultura de precisão feita à mão. Não se desenha para baixar custos ou mecanizar, mas sim para ouvir o que cada planta centenária precisa para continuar a produzir excelência. A convergência entre a Bairrada e o vinho de talha na Adega Malápio representa um dos exercícios mais ousados e interessantes da viticultura nacional contemporânea. É o encontro de duas forças geológicas e culturais distintas: o barro e o solo argilo-calcário da Bairrada. Os pontos fundamentais que definem o vinho de talha da Adega Malápio: 1. A desconstrução do dogma Tradicionalmente, a Bairrada é a terra do espumante e dos tintos potentes de Baga. Ao introduzir a talha (ânfora de barro), a Malápio recupera um método de vinificação romano que retira o protagonismo à madeira (carvalho) e o devolve à pureza do fruto e à micro- -oxigenação natural do barro. 2. O papel do solo argilocalcário Ao contrário do Alentejo, onde os solos são frequentemente de xisto ou granito, a Malápio utiliza as uvas das suas vinhas medievais plantadas em solo argilo-calcário. • Mineralidade: o barro da talha potencia a frescura e a acidez natural da Bairrada. • Textura: a porosidade da talha ajuda a polir os taninos por vezes rústicos da casta Baga, resultando num vinho com uma textura aveludada, mas com a estrutura vertical típica da região. 3. O processo de vinificação na Malápio Na Adega Malápio, o vinho de talha respeita as regras ancestrais, mas beneficia da higiene e do controlo técnico moderno: • O 'Pez': a talha é revestida interiormente com pez (uma mistura de resina de pinheiro, cera de abelha) para garantir a impermeabilização. • Contacto com as massas: o vinho fermenta e estagia com o 'mãe', curtimenta em contacto com as películas com as leveduras indígenas (naturais das próprias uvas). É adicionado um 'pé-de cuba', preparado previamente com uvas sãs e bem maduras, para estimular o arranque da fermentação, que se inicia ao fim de 36 horas. Depois das massas subirem à superfície eram mergulhadas, com um pé de galo, duas vezes ao dia. quando a fermentação acaba, ao fim de 15 dias, deixa-se assentar a manta no fundo do pote. • O filtro natural: na hora da trasfega, as massas que se depositaram no fundo da talha servem de filtro natural, resultando num vinho de brilho autêntico e intervenção mínima. O vinho ficou preparado para passar a limpo (trasfega para outra talha) e fazer o estágio e a cura de inverno, tendo o cuidado de se lhe juntar o vinho da prensagem das massas. • Sem intervenção de laboratório: engarrafado sem recorrer a colagem, clarificação, controlo de temperaturas, nem filtração. São preservados os métodos ancestrais, utilizando uma quantidade mínima de sulfuroso, criando um vinho natural e de mínima intervenção. 4. A DIFERENCIAÇÃO: FRESCURA vs. CONCENTRAÇÃO Enquanto muitos vinhos de talha alentejanos são quentes e concentrados, o vinho de talha da Bairrada da Malápio destaca-se pela sua frescura atlântica. A acidez vibrante das castas da Bairrada (como a Baga nos tintos ou o Bical e Maria Gomes nos brancos) impede que o vinho se torne pesado, criando um perfil gastronómico muito versátil. 5. UM VINHO DE 'VINHA E MÃOS' Este vinho é a expressão máxima da agricultura sustentável e regenerativa que discutimos anteriormente. Como não há passagem por barricas novas de carvalho, não há 'maquilhagem'. O que está na garrafa é o reflexo direto: 1. do estado do solo naquele ano. 2. do equilíbrio da biodiversidade da vinha. 3. do manuseamento manual e cuidadoso que evita a oxidação excessiva. Em suma, o vinho de talha na Adega Malápio não é apenas uma curiosidade histórica; é uma ferramenta técnica para expressar o terroir da Bairrada de forma nua e crua, unindo a resistência das vinhas centenárias à nobreza da cerâmica. n
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