Chaparro Agrícola e Industrial, S.L.
Informação profissional para a agricultura portuguesa

“A base da criação do CEREALTECH é a união de toda a fileira”

Ana Clara15/11/2021

O CEREALTECH - Centro Nacional de Competências dos Cereais Praganosos, Oleaginosas e Proteaginosas tem como grande objetivo valorizar a fileira bem como a inovação. José Palha, presidente da Associação Nacional de Produtores de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais (ANPOC), faz à Agriterra o ponto de situação do projeto que "coloca todo o setor a olhar para um único objetivo, seja a produção, a investigação ou a indústria que utiliza este tipo de produtos". 

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José Palha, presidente da Associação ANPOC, entidade gestora do CEREALTECH. 

Neste momento, começa por explicar José Palha, já está concluída a Agenda de Inovação, "que era o nosso principal objetivo de curto prazo, pois representa a base de todo o trabalho do Centro de Competências e uma ferramenta fundamental para a fileira, na medida em que concentra as necessidades de inovação de toda a cadeia de valor - produção, transformação e distribuição".

"O processo de definição da Agenda de Inovação do CEREALTECH partiu de um estudo da realidade do setor e passou por várias fases de consulta generalizada à fileira, numa lógica de promoção do debate e do comprometimento perante a mesma. No fundo, a Agenda de Inovação identifica os caminhos para tornar a fileira dos cereais mais competitiva, sustentável e preparada para o futuro", adianta.

José Palha afirma que "a base da criação deste centro de competências é a união de toda a fileira, colocando todo o setor a olhar para um único objetivo, seja a produção, a investigação ou a indústria que utiliza este tipo de produtos: os cervejeiros, a moagem e as rações".

"Temos, por isso, trabalhado muito em conjunto, não só agora na definição da Agenda de Inovação, mas em muitas outras atividades que a ANPOC já desenvolvia, mas que agora se integram no CEREALTECH. Este trabalho conjunto tem aproximado bastante os vários elos da cadeia, mostrando a cada um as dificuldades e constrangimentos dos outros. Este conhecimento faz com que a criação de valor atenda a todos estes fatores e se faça de uma forma muito mais integrada e sustentada", acrescenta o responsável. 

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É por isso que considera que, “com este envolvimento, e comprometimento abrangente, damos um passo determinante para qualificar as empresas e reforçar a intervenção dos agentes de desenvolvimento rural no que respeita à importância da inovação como um dos pilares para a sustentabilidade e incorporação de valor, com impacto nas fileiras, nos seus agentes e nos territórios rurais”.

Sobre a articulação com as políticas públicas, nomeadamente o Ministério da Agricultura, José Palha recorda que "Portugal tem um défice crónico no grau de autoaprovisionamento de cereais, base da alimentação humana e animal. Na CE apenas Malta tem um grau de autoaprovisionamento inferior a Portugal". 

“Nem sempre as ações do Ministério da Agricultura correspondem às necessidades dos agricultores”

No caso do trigo mole panificável, por exemplo, a nossa autossuficiência é de apenas 5%. "Por esta razão, foi criada e aprovada em Conselho de Ministros, já em 2018, a Estratégia Nacional para a Promoção da Produção de Cereais, que identificava uma serie de medidas para contrariar esta situação, muitas dependentes da produção, e outras dependentes da ação política. Das que dependem de nós, muitas já estão em prática. Destaco o já referido reforço da Agenda de Inovação, a dinamização da produção de semente certificada e de genética nacional através da Lista de Variedades Recomendadas e a valorização da produção nacional, com a marca 'Cereais do Alentejo' que tem tido uma enorme aceitação por parte do consumidor e um crescimento exponencial. Já no que depende da política, estamos mais céticos", explica.

Contudo, lamenta José Palha, "nem sempre as ações do nosso Ministério correspondem às necessidades dos agricultores e da agricultura portuguesa, esquecendo muitas vezes o que é estratégico, optando por escolhas cujo propósito é meramente político". 

Neste momento, e depois de o Ministério ter deixado cair a medida do pagamento ligado aos cereais, “suspendemos a nossa participação na Comissão de Acompanhamento da Estratégia. Mas vamos ver como evolui esta situação”, contextualiza.

“A inovação tecnológica é o único caminho para a sustentabilidade económica e ambiental”

No que respeita à inovação que comporta o CEREALTECH, José Palha realça que a tecnologia na agricultura tem tido, nos últimos anos, "evoluções extraordinárias, o que tem permitido que o 'produzir mais com menos' seja cada vez mais uma realidade. Esta dinâmica é absolutamente essencial, não só por uma questão de rentabilidade, mas também para atingir a sustentabilidade que o planeta precisa, e para dar corpo às aspirações da Comissão Europeia, nomeadamente no que se refere ao 'Green Deal'. Estes objetivos só se conseguirão concretizar com o aumento e estabilidade da produção e uma muito eficiente utilização dos recursos, quer sejam água, energia ou fertilizantes. A inovação tecnológica é o único caminho para a sustentabilidade económica e ambiental.

A missão do CEREALTECH é precisamente, e agora que as necessidades do setor estão identificadas, "promover o trabalho em rede e a integração da fileira, capacitar e disseminar a informação, contribuindo assim para a inovação e incorporação de conhecimento nas empresas e organizações do setor agrícola", reforça o Presidente da ANPOC.

A formação técnica que a ANPOC tem levado a cabo nos últimos anos, que agora fica debaixo do 'chapéu' do CEREALTECH, "é o exemplo máximo deste trabalho", sustenta.

A missão do CEREALTECH é “promover o trabalho em rede e a integração da fileira, capacitar e disseminar a informação, contribuindo assim para a inovação e incorporação de conhecimento nas empresas e organizações do setor agrícola”, diz José Palha

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Mais de 100 agricultores e técnicos formados

No âmbito do CEREALTECH há várias ações e eventos previstos. A formação técnica para os cereais de outono/inverno é uma das ações mais emblemáticas.

Esta iniciativa vai já na 5ª edição e conta com inúmeros parceiros, como o INIAV e o IPBeja, o IPMA e muitas outras entidades e empresas que, ano após ano, "nos mostram o que há de novo no setor".

"Tem por objetivo formar os agricultores em contexto real. A formação, apoiada no acompanhamento de parcelas específicas ao longo do ano agrícola, está focada na otimização dos fatores de produção ao longo das diferentes fases vegetativas dos cereais, em função do potencial dessas parcelas; e orientada para a estabilidade e rentabilidade das produções. Não contando com esta 5ª edição, que teve de ser interrompida por causa da pandemia de Covid-19 e que vai ser agora retomada, já formámos mais de 100 agricultores e técnicos".

Destaque também para a LVR – sigla de Lista de Variedades Recomendadas –, uma iniciativa também ela agora integrada no CEREALTECH, que visa a identificação das variedades de cereais que melhor se adaptam às principais zonas produtoras de cereais em Portugal e que melhor servem os interesses de todos os intervenientes da fileira.

Estas recomendações conduzem, assim, à produção de lotes homogéneos e de maior dimensão, de elevada qualidade e perfeitamente adaptados às necessidades de transformação da indústria. José Palha informa que acabaram de ser lançadas as LVR 2021/2022 para o trigo mole e trigo duro.

“Destaco, igualmente, a organização do Dia do Agricultor, um dia de campo que reúne investigação, produção, indústria e distribuição para mostrar o que de melhor se faz em Portugal, quer ao nível da inovação, quer ao nível da valorização da produção portuguesa. Finalmente, temos também participado nas feiras do setor. Na FNA, em conjunto com os outros Centros de Competência, e na Agroglobal, em conjunto com o InovMilho”, afirma, lembrando que todas estas ações e eventos têm uma dinâmica anual e "os impactos são muito positivos. Iremos, naturalmente, manter este nosso trabalho".

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"Uma das razões para o decréscimo de produção nos últimos anos é a pouca rentabilidade destas culturas"

AGRITERRA: O setor dos cereais tem vivido períodos de alguma turbulência. Como olha para o panorama da produção (com necessidades de crescimento), da sustentabilidade e eficiência no uso dos recursos e também no que respeita ao tão famigerado tema da rotação de culturas, tão importante?

José Palha: Uma das razões para o decréscimo de produção nos últimos anos é, sem dúvida, a pouca rentabilidade destas culturas. Os solos e o clima que temos em Portugal não nos permitem grandes produções, como acontece noutras latitudes. O mercado global leva a que países mais competitivos consigam colocar os seus produtos mais baratos no nosso País.

No entanto, nós conseguimos produzir qualidade, qualidade essa reconhecida pela indústria e reconhecida, cada vez mais, pelo consumidor final. Exemplo disso é o crescimento exponencial da marca Cereais do Alentejo. O caminho do setor tem que ser o da valorização da produção por via da qualidade. Temos feito esse trabalho de valorização, aliando a LVR, a promoção e a transferência de conhecimento tendo em vista o aumento da eficiência na utilização dos recursos. Temos, hoje, de responder a quatro grandes tendências: a necessidade de ser mais eficientes para alimentarmos uma população cada vez maior; num mundo que se impõe mais ecológico; que procura novas alternativas alimentares, simultaneamente seguras e nutricionalmente equilibradas; e que reconhece, cada vez mais, a importância da origem e proximidade do que consome. Nós damos resposta a estas novas tendências: produzir mais (e em qualidade) com menos e, assim, ser mais sustentável a todos os níveis, seja ambiental ou económico.

A questão das rotações é, na nossa opinião, muito importante, razão pela qual queremos que culturas como o girassol, o grão ou a colza, sejam uma alternativa real às culturas de primavera/verão como o milho ou o tomate de indústria. Estas culturas têm vindo a ganhar preponderância na medida que o seu maneio é cada vez mais eficiente e a rentabilidade cada vez maior. Acresce o papel importante para a conservação do solo e, não menos importante, o facto de serem culturas que, em regadio, têm um consumo de água, comparativamente, muito reduzido. Em anos secos, o que infelizmente é cada vez mais frequente, este tipo de culturas pode representar uma alternativa muito relevante.

Como encara as ajudas, no âmbito da nova PAC, aos cereais e as posições da tutela que no verão passado todos assistimos?

Na nossa opinião, esta mudança de posição é absolutamente incompreensível. A medida que estava desenhada resultava de um enorme trabalho, quer das instituições públicas, quer do setor, e baseava-se numa análise profunda da produção e do que se considera importante acontecer em Portugal do ponto de vista estratégico. Não achávamos possível, por isso, que a medida da ajuda ligada aos cereais no período de transição (2022) - i) tecnicamente e estrategicamente fundamentada; ii) prevista há um ano – aliás publicamente anunciada, por mais de uma vez, inclusivamente pela Sr.ª Ministra –; iii) apresentada, na sua essência, pelo GPP; e iv) aprovada pela Comissão Europeia - pudesse simplesmente cair!

Fica a sensação que tutela não tem um rumo definido e que, por questões de política doméstica, cede a pressões, desconsidera o trabalho das suas equipas e põe em causa um setor tão importante como é o dos cereais. Temos, neste momento, a promessa da Sr.ª Ministra que em 2023, aquando da entrada em vigor da nova PAC, esta medida será uma realidade. Ora, nós esperamos que assim seja. No entanto, o atraso no PEPAC e a pouca transparência que envolve todo o processo, deixa-nos muito apreensivos.

Que desafios e constrangimentos, de uma forma sucinta, imperam à fileira dos cereais em Portugal?

Os desafios são, sem dúvida, a continuação da valorização da produção e a cada vez maior eficiência da utilização dos recursos que nos levará à sustentabilidade da produção. Como costumo dizer, é um trabalho que se faz em conjunto, com toda a fileira. Cabe à ANPOC e ao CEREALTECH garantir esta integração e dar continuidade ao trabalho que tem sido desenvolvido.

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"A questão das rotações é muito importante, razão pela qual queremos que culturas como o girassol, o grão ou a colza, sejam uma alternativa real às culturas de primavera/verão como o milho ou o tomate de indústria". 

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