Chaparro Agrícola e Industrial, S.L.
Informação profissional para a agricultura portuguesa

Agricultura sustentável e resiliente: do microbioma do solo à valorização dos produtos agrícolas

Livia Pian1, Olfa Zarrouk1, Carla Alegria1, José Águas2, Aires Proença2, Alberto Acedo3, José Silvestre4 e Cátia Pinto1

1Associação SFCOLAB – Laboratório Colaborativo para a Inovação Digital na Agricultura, Rua Cândido dos Reis nº 1 Espaço SFCOLAB, 2560-312 Torres Vedras;

2Câmara Municipal do Fundão, Praça do Município 7, 6230-341 Fundão;

3Biome Makers, 890 Embarcadero Drive West Sacramento, CA 95605 EUA;

4INIAV, Pólo de Dois Portos, Quinta da Almoinha, 2565-191 Dois Portos

17/05/2022
Sustentabilidade, resiliência, neutralidade ou digitalização são algumas palavras do nosso dia-a-dia quando o tema é agricultura. Pode ser repetitivo, mas ainda assim reiteramos que é necessário produzir mais, utilizando melhor os recursos, quer seja água, solo, fertilizantes e fitofármacos. E mais, é preciso conservar os recursos endógenos e a biodiversidade e aumentar a resiliência de toda a cadeia desde o prado ao prato. Na teoria parece simples, mas na prática não faltam desafios!
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Produção em grande escala. Colheita.

Estima-se que em 2050, a população mundial seja 25% superior em relação à população atual pelo que produzir mais alimentos, utilizando menos recursos naturais como é o caso da água ou o solo é um dos maiores desafios do setor agrícola. Produzir hoje, valorizando o amanhã é um desafio e uma missão já dos dias de hoje! Os recursos naturais são limitados e é importante respeitar e conservar os recursos endógenos e a biodiversidade. Tal só será possível através da implementação de uma intensificação sustentável da agricultura. Aliás, a implementação de uma agricultura sustentável, do ponto de vista económico, ambiental e social, aliado à transição digital do setor são os desafios mais exigentes para a atual geração de agricultores, como identificado nas políticas europeias - Pacto Ecológico Europeu e Farm-to-Fork, e nacionais - Agenda de Inovação Terra Futura, e de acordo com as metas definidas para 2030. Neste sentido, é fundamental a re-evolução verde da agricultura, que passa não só por uma transição digital e tecnológica do sector, mas também por uma maior consciencialização sobretudo ao nível das práticas agrícolas.

Tomando o solo como exemplo, estima-se que 95% dos alimentos são produzidos de forma direta ou indireta no solo e, neste sentido, o solo é considerado a base para a agricultura. O solo é uma estrutura viva e não apenas uma matriz de suporte à vida humana, animal e plantas. Neste sentido, manter um solo vivo e saudável, é um sinónimo claro de proteger a biodiversidade do solo e, sem dúvida, a base para a produção de alimentos saudáveis tanto ao nível da sua qualidade, mas também quantidade. Para além do mais, os solos são responsáveis por sequestrar uma grande quantidade de carbono.
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Mas a grande questão que se coloca é como manter um solo saudável em particular para a agricultura e para uma intensificação sustentável do sector? O solo é composto por um grande e complexo número de macro e microorganismos. No caso dos microorganismos, estes incluem fungos, bactérias, vírus, arqueas e protozoários que, no seu todo constituem o microbioma do solo. Manter o equilíbrio deste microbioma é fundamental para estabelecer um solo agrícola equilibrado e saudável. Um solo saudável vai fornecer nutrientes necessários de forma equilibrada para as plantas, aumentar a capacidade de retenção da água e promover o sequestro de carbono, bem como aumentar a resistência e resiliência das plantas às pragas, doenças e outros stresses abióticos. Além disso, ao permitir uma população microbiana benéfica, diminui a incidência de microorganismos patogénicos. Para manter um solo saudável é, pois, necessário, ter em conta diferentes práticas agrícolas que visem uma maior fertilidade do solo, maior biodiversidade e maior produtividade.
Tendo em vista estas relações, o microbioma do solo pode ser de facto utilizado como um biomarcador da sustentabilidade da produção agrícola. Por exemplo, comparando duas explorações agrícolas independentes de produção de prunóideas (ameixa e nectarina), de duas localidades próximas da região do Fundão mas utilizando práticas de gestão distintas – produção em pequena escala vs grande escala, verifica-se que ambas explorações apresentam parâmetros altos da qualidade do solo (Figura 1). Observando com maior detalhe, o primeiro exemplo trata-se de uma exploração familiar, de pequena escala, com certificação biológica e, no qual, a produção de ameixa é extensiva (baixa densidade de plantação). As árvores apresentam 31 anos de idade, conduzidas em sequeiro, sem aplicação externa de fertilizantes químicos ou orgânicos mas com integração animal através de pastoreio rotacional de ovelhas. O segundo exemplo trata-se de uma exploração comercial de nectarinas, de grande escala, com certificação de boas práticas. Neste exemplo, a produção de nectarinas é semi-intensiva, as árvores apresentam 11 anos de idade, e com aplicação de fertirega, fitofármacos e fertilizantes de síntese e fertilizantes orgânicos.
Para ambas as explorações agrícolas, os biomarcadores baseados na comunidade microbiana do solo indicam uma alta qualidade e funcionalidade do solo, indicando que ambos sistemas produtivos aplicam técnicas sustentáveis (Figura 1). Neste caso, o grande destaque vai para o facto de que uma produção em escala comercial pode garantir solos com qualidade funcional, quando acompanhada de boas práticas de gestão sustentável.
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Figura 1. Comparação do índice da qualidade do solo numa produção em pequena (ameixa) e grande escala (nectarina). O índice da qualidade do solo é um bioindicador baseado na ecologia do microbioma do solo que altera com base na gestão agrícola.
Estes dados podem ainda ser comprovados com os biomarcadores do estado nutricional do solo, baseado no potencial de mobilização de macro e micronutrientes pela comunidade microbiana (Figura 2). Uma vez mais, é observado um bom equilíbrio entre os macro e micronutrientes em ambas as produções - pequena e grande escala. Para além do mais, os valores obtidos indicam práticas de gestão com menos intensificação usando abordagens respeitosas do ambiente.
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Figura 2. Comparação do estado nutricional do solo com base no potencial da comunidade microbiana para mobilização de macro e micronutrientes via a planta, numa produção em pequena (ameixa) e grande escala (nectarina).

Manter um solo vivo e respeitar esta matriz que todos os dias pisamos é, sem dúvida, um grande desafio mas uma missão de todos nós!

Agrogarante - Sociedade de Garantia Mútua, S.A.Chaparro Agrícola e Industrial, S.L.

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