Chaparro Agrícola e Industrial, S.L.
Informação profissional para a agricultura portuguesa

Eficiência de recursos para produzir mais com menos

Gabriela Costa20/04/2024
Num contexto desafiante onde a gestão dos recursos hídricos será, porventura, a ação mais prioritária, o setor do tomate de indústria transforma-se, crescendo e modernizando-se com o foco em tendências sustentáveis, como a redução do uso de fitofarmacêuticos.
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No atual contexto de crise e inflação, qual é a realidade do tomate de indústria em Portugal? Como evoluíram nos últimos anos os números de produção e exportação, e que dificuldades enfrenta o setor, face a desafios como as alterações climáticas, a economia circular ou a rápida transformação tecnológica?

Neste dossier que procura traçar o raio-X do atual mercado do tomate de indústria, a Associação Portuguesa de Horticultura (APH) avança à Agriterra que a produtividade média nesta cultura “tem vindo a subir paulatinamente”, sendo a média dos últimos cinco anos de 95 toneladas/hectare (ton/ha), “resultado das melhorias técnicas introduzidas e da escala dos produtores”. Segundo Fernando Pires da Costa, vice-presidente da APH para a Horticultura Herbácea, 2021 foi o ano em que se registaram “valores recorde de produtividade”, com o valor médio nacional a registar 105 ton/ha.

O mercado tem-se mantido estável nos últimos anos, adianta, com uma produção total contratada variável entre 1.350 e 1,5 milhões de toneladas de tomate para processamento. A área de transformação tem sofrido algumas oscilações de ano para ano, mas em termos médios tem sido de 14 a 15 mil hectares, explica o responsável da APH. Trata-se de uma área “com grande representatividade na região do Vale do Tejo”, onde se situa grande parte da indústria transformadora de tomate. Na opinião de Fernando Pires da Costa, ao longo dos últimos anos também se verificou “o abandono de algumas zonas e solos com menor potencial para esta cultura, devido a um break-even cada vez mais elevado e exigente”.
Segundo Fernando Pires da Costa, vice-presidente da APH para a Horticultura Herbácea...
Segundo Fernando Pires da Costa, vice-presidente da APH para a Horticultura Herbácea, 2021 foi o ano em que se registaram “valores recorde de produtividade”, com o valor médio nacional a registar 105 ton/ha.
Já de acordo com o Histórico de Produção da FNOP – Federação Nacional das Organizações de Produtores de Frutas e Hortícolas, o mercado do tomate de indústria em Portugal estabiliza, em 2022 (1,4 milhões de toneladas), em valores semelhantes aos registados em 2019. Isto depois de, em 2020, a produção ter diminuído para menos de 1,3 milhões de tons, e em 2021 ter crescido para 1,6 milhões de tons, atingindo o segundo valor mais alto (2015 regista uma produção de 1,81 milhões de tons).
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Segundo o Histórico de Produtividades da FNOP, 2021 alcançou o melhor registo, com 103,69 tons/ha, valor que decresce para 89,56 em 2022. A nível de Histórico de Área Nacional, o ano passado mantém a tendência de crescimento de 2021, com 2022 (área declarada no PU) a registar uma área de produção de 15 786 hectares.
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Tomate transformado é o mais exportado

Quanto a previsões sobre os números de produção deste ano, e segundo os dados contratados que constam no IFAP, a FNOP “prevê um aumento de área de produção de tomate para 2023” de 15786 há, em 2022, para 17675 ha em 2023.
O especialista em tomate de indústria da APH corrobora o crescimento da produção, sublinhando que os números recentemente divulgados no site do IFAP revelam um crescimento da superfície contratada, em cerca de mais mil ha que no ano passado, com um total de 15.789 ha. A produção contratada evolui no mesmo sentido, para as 1.676.590 tons de tomate, “um dos valores mais altos de sempre”, comenta Fernando Pires da Costa.
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João Geada, produtor de tomate de indústria da Herdade do Caldas, nota um decréscimo na produção nos últimos anos, depois de um recorde de superfície contratada entre 2017 e 2018. Ainda que se preveja novo aumento em 2023, “à data, o nosso objetivo ainda é recuperar alguma margem. Vamos ver se ganhamos algum dinheiro”, comenta. A quebra na produção afetou a indústria de transformação, já que com “menos matéria-prima houve menos oferta no mercado”, o que gerou “um incremento no preço do concentrado e mais pressão” sob o produto, refere João Geada.

No que respeita à internacionalização e níveis de exportação do tomate de indústria nos últimos anos, e como sublinha Gonçalo Santos Andrade, presidente da Portugal Fresh, os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística relativamente a 2022 indicam que “o tomate transformado é o produto mais exportado, valendo 330 milhões de euros no total das exportações nacionais”. Comparativamente aos 79 milhões de euros de tomate fresco exportado (em quinto, no top da exportação no setor) “o tomate transformado é o líder das exportações de frutas, legumes e flores em 2022”, conclui o presidente da associação que se dedica à promoção internacional destes produtos.

"O tomate de indústria regista dados em 2022 que permitem concluir que as exportações subiram quase 30% (cerca de 95 milhões de euros)...

"O tomate de indústria regista dados em 2022 que permitem concluir que as exportações subiram quase 30% (cerca de 95 milhões de euros) relativamente a 2021”, indica Gonçalo Santos Andrade, presidente da Portugal Fresh

Nas palavras de Gonçalo Santos Andrade, o tomate transformado “mostra que há produtos onde o equilíbrio entre o valor da exportação para países terceiros (44%) e a União Europeia (56%) é grande”. De referir que, no global do setor das frutas, legumes e flores, a UE representa 80%. Tendo como principal destino o Japão (17%), seguido da Alemanha e da Espanha, o tomate de indústria regista dados em 2022 que “permitem concluir que as exportações subiram quase 30% (cerca de 95 milhões de euros) relativamente ao ano de 2021”.

O peso das exportações no negócio em 2023 é promissor, segundo a Portugal Fresh: em 2022, o valor da produção do setor das Frutas, Legumes e Flores registou cerca de quatro mil milhões de euros, representando as exportações 50% deste valor”. Um comportamento “que estimamos que se possa manter”, diz o responsável.

Na sua perspetiva, mesmo num contexto particularmente adverso, de pandemia, guerra, escalada de preços e inflação, “as empresas portuguesas não só nunca desistiram, como demonstraram enorme resiliência para atingir os seus objetivos”. 

A Portugal Fresh acredita que Portugal pode alcançar os 2.500 milhões de euros de exportações já em 2030. Mas para o seu presidente é preciso executar reformas estruturais – “a gestão dos recursos hídricos, por exemplo, é um tema inadiável” -, e dar respostas políticas e estratégicas, sustentadas em investimento, inovação, tecnologia e promoção.

Agricultura de precisão combate fitofarmacêuticos

A par dos esforços para gerir os recursos hídricos, combater as alterações climáticas, integrar a economia circular ou acompanhar a rápida transformação tecnológica do setor, as empresas portuguesas enfrentam uma nova tendência para a sustentabilidade dos ecossistemas, que coloca um desafio: a adaptação aos objetivos europeus de redução do uso de produtos fitofarmacêuticos em 50% até 2030. O que têm feito para reduzir a sua utilização?
Garantindo que as empresas produtoras de frutas, legumes e flores cumprem todas as regras da UE de controle de qualidade, higiene e segurança alimentar, o presidente da Portugal Fresh defende que “a ambição da União Europeia em ser o líder mundial no combate às alterações climáticas não pode resultar numa diminuição da produção na UE e num aumento das importações de países terceiros”. Segundo Gonçalo Santos Andrade, “o contributo da agricultura da UE para as emissões globais deve ser inferior a 1,5%”.
Na opinião da APH, apesar de a meta proposta “ser bastante ambiciosa e pouco realista, é certo que tem havido uma evolução natural da agricultura em reduzir a aplicação de produtos fitofarmacêuticos, com a adoção de medidas de produção integrada”. No entanto, e como clarifica Fernando Pires da Costa, “o grau de intensificação obriga a uma estratégia de defesa sanitária bem dirigida e específica” ao longo do ciclo produtivo. Algumas empresas já utilizam modelos preditivos para determinadas pragas e doenças, “permitindo atuar apenas quando é necessário”, detalha.
As novas tecnologias associadas à agricultura de precisão permitem, de uma forma direta, reduzir a aplicação de produtos fitofarmacêuticos, seja por variação do volume da aplicação ou através do mapeamento da produtividade, explica o responsável. Existe também uma tendência, neste mercado, para o desenvolvimento de produtos mais respeitadores do ambiente, mais inócuos e específicos.
De acordo com a FNOP, a produção “tem vindo a experimentar as soluções de resíduo zero, e a testar a sua eficácia no combate às pragas e doenças da cultura”. Dado que a persistência destes produtos é inferior aos de síntese química, para garantir a sua eficácia é necessário repetir a sua aplicação mais vezes, “aumentando os encargos da cultura”, explica fonte oficial.
Para João Geada, os agricultores, que “são muito resilientes”, têm vindo a retirar substâncias ativas” das culturas, incluindo de tomate, mas “o problema é não haver alternativas no mercado: retiram-se os produtos, as produções diminuem, provoca-se um incremento no preço e o consumidor é que vai pagar a fatura”, lembra. Os fitofarmacêuticos “devem ser retirados, mas encontrando alternativas para os produtores”.

As empresas “estão a adaptar-se com muita dificuldade”, porque se “atualmente o preço é mais barato”, só o é “porque há apoios a nível europeu”. Mas esses apoios “são sempre para os consumidores, nós não temos subsídios”, lamenta o produtor, sublinhando: “os subsídios que existem são para baixar o preço do alimento, basicamente”.

Quando afinal, e como sugere o presidente da Portugal Fresh, “os agricultores contribuem para a coesão territorial, ocupam e cuidam de territórios de baixa densidade, e utilizam cada vez mais os recursos de forma eficiente”, produzindo mais com menos. Destes que são “os maiores protetores do ambiente e da biodiversidade”, até à indústria, seja no setor do tomate ou em qualquer outro de frutas e hortícolas, toda a cadeia deverá preparar-se para aumentar a produção sustentável de alimentos na UE.

Tendências no tomate de indústria

Produção sustentável, circularidade, biotecnologia, monitorização de inputs e agricultura de precisão marcam as tendências do setor.

A visão da APH

  • Os grandes desafios no processo de transformação do tomate de indústria são o elevado consumo de energia, a logística de expedição dos produtos e a instabilidade dos mercados.
  • A inovação e desenvolvimento de novos produtos e processos de produção mais eficientes, em conjunto com a poupança de energia e água, serão insígnias de uma indústria cada vez mais competitiva.
  • Dada a falta de garantia de disponibilidade de água para o regadio, há uma procura incessante por tecnologias de produção e de desenvolvimento de variedades mais adaptadas a cenários extremos, como as ondas de calor.
  • A Europa é o continente que tem a política agrícola mais restritiva e exigente quanto à utilização e homologação de produtos fitofarmacêuticos. A produção europeia é a mais segura do mundo para o consumidor.

A visão da FNOP

  • A produção vê-se agora confrontada com uma nova política agrícola, que traz novas exigências e muitos desafios ao campo.
  • O produtor está mais instruído na linha de uma estratégia de luta de proteção da sua cultura, olhando sempre à estimativa de risco. A monitorização tem sido fortemente incrementada na produção, o que revela a importância dada à sustentabilidade dos ecossistemas.
  • Há uma tendência de utilização de produtos de resíduo zero e decorrentes da economia circular da própria produção e transformação de hortícolas. Mas a transição poderá ser lenta e complementar aos produtos de síntese química.
  • Há uma retirada maior de soluções de combate a pragas e doenças que uma entrada de alternativas com uma eficácia similar. Prevalecem opções financeiramente mais elevadas e que aumentam os encargos do produtor e afetam a rentabilidade da cultura.

A visão da Portugal Fresh

  • No topo das prioridades tem de estar a água. O setor agroalimentar só é competitivo com acesso a este recurso e há que apostar na modernização dos aproveitamentos hidroagrícolas e na criação de barragens para múltiplos fins.
  • É urgente apostar no tecido produtivo e dar prioridade ao crescimento sustentado da produção de alimentos. As medidas adotadas pelo Governo são exíguas e frágeis face às adotadas nos restantes países do sul da Europa, o que reduz a competitividade.
  • Na fileira do tomate transformado importa garantir condições idênticas às da Espanha e de Itália a nível da Política Agrícola Comum. Portugal precisa de ferramentas financeiras idênticas aos seus principais concorrentes.

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