Chaparro Agrícola e Industrial, S.L.
Informação profissional para a agricultura portuguesa

O futuro é a intensificação sustentável

Emília Freire02/10/2020

João Coimbra, produtor de milho na Quinta da Cholda (empresa familiar que em 2023 celebra o centenário, na Golegã), há mais de 20 anos que tem vindo a adotar o smart farming na sua exploração, defendendo um modelo de intensificação sustentável.

Conversamos no seu escritório na quinta e o agricultor diz-nos que “a Agricultura de Precisão (AP) propriamente dita começou em 2014, quando tomámos a decisão estratégica de transformar a exploração numa lógica de AP, mas há mais de 20 anos que fazemos gestão de rega, com sondas de humidade, telemetria, estações meteorológicas etc.. Desde 2006 que registamos todos os consumos, inputs e produção”.

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A Cholda gere cerca de 500ha de regadio de monocultura de milho, com algumas áreas de pousio e 50ha de ‘arroz floresta’, “chamo-lhe isso porque é uma variedade ‘anti-incêndios’ que ajuda a prevenir os incêndios e que fazemos nos vales junto a áreas de floresta, mas só nos anos em que temos água”, explica o agricultor, acrescentando que têm cerca de 2.000ha de sobreiros, pinheiros mansos, eucaliptos e pinheiros bravos.

“Se a minha família não tivesse terras eu seria certamente ‘informático’ e não agricultor”, confessa João Coimbra, que explica assim o seu interesse em juntar estas duas áreas, através da AP.

João Coimbra, produtor de milho na Quinta da Cholda

João Coimbra, produtor de milho na Quinta da Cholda.

AP são decisões e processos, mais do que máquinas

Voltando a 2014, quando o produtor nos diz que foi quando adotou totalmente a AP, e explica: “A AP tem a ver com o processo como tomamos decisões e de otimização de todos os recursos e inputs, de usar só a quantidade certa, na altura certa e no local certo”.

E para quem diz que a AP só é possível para quem tem muito dinheiro para investir e estar sempre a comprar o último modelo deste ou daquele equipamento, João Cimbra responde: “Comprámos as primeiras sondas de humidade e estações meteorológicas em 1993/1994 e algumas ainda trabalham, as máquinas com que comunicamos com os pivots, que têm um software norte-americano, não mudam desde 1998”, mas o agricultor reconhece que “o grande avanço das telecomunicações, nomeadamente da Internet, permitiu um salto enorme”.

João Coimbra lembra que “tem sido precisa muita persistência ao longo destes anos, só foi possível porque a empresa estava robusta e saudável financeiramente. Porque tínhamos muito mais perguntas que respostas… ninguém as tinha, tivemos de ‘construir’ muita coisa de raiz aqui na quinta”, salientando a ajuda dos filhos e de vários estagiários de projetos que foi desenvolvendo.

Ciclo da Agricultura da Precisão
Ciclo da Agricultura da Precisão.

O agricultor frisa também o grande emprenho dos colaboradores que “foi preciso ir convencendo que este novo caminho era o certo, mas que foram sempre aderindo às inovações, como a condução automática, por exemplo, que tem hoje uma adesão total”. E não estamos a falar só de trabalhadores no campo, “hoje somos mais no escritório (seis) que no campo (cinco)”. Por isso, salienta que tem procurado colaboradores mais jovens, com formação em agronomia, mas também em informática, “há muita informação e é preciso gerir muitos dados: temos hoje mais de 70 dados por cada quadrado de 50m”. Dados de mapas de produtividade, de condutividade elétrica do solo, cartas de NDVI, sondas de humidade, estações meteorológicas, imagens de drones, etc.

João Coimbra refere a dificuldade de “interligar todos os dados e diversos sistemas porque cada fornecedor tem o seu, por isso o nosso objetivo é criarmos um sistema em open source que interligue todos os dados, os torne comparáveis e seja fácil de ler. Por isso fizemos parte do projeto SmartCrop, e continuamos a avançar nesse sentido”.

Informação em camadas
Informação em camadas.

O agricultor frisa que conhecendo a exploração ‘ao milímetro’ “conseguimos fazer microzonagens para podermos tratar, de forma diferente, o que é diferente e de maneira igual o que é igual”.

Com o preço do milho a níveis baixos no mercado, João Coimbra defende que a única forma de ser rentável é através da intensificação da produção “mas sempre de forma sustentável, não encaro as coisas de outra forma: esta é uma empresa familiar e quero deixar uma exploração em ótimas condições para as futuras gerações”. Por isso, desde há muito que o agricultor trabalha até com associações ambientais na criação de espaços de biodiversidade, em zonas pouco produtivas, para conservação e refúgio de animais, bem como faixas verdes para as aves, para além de praticar agricultura de conservação, com mobilização mínima do solo e sementeira direta “e produzindo sempre mais por cada unidade de fator de produção usado, reduzindo o impacto ambiental, e o custo”. “Adaptamos a parcela à melhor semente, na profundidade certa e semeamos na melhor altura para aquele local”, acrescenta.

João Coimbra salienta que “a maior vantagem da AP é a otimização dos custos, mais do que o aumento de produção, bem como o conhecimento de tudo o que estamos a fazer, que dá um fundamental apoio à gestão”. Por isso, está a preparar uma forma de poder partilhar toda a informação e conhecimento que adquiriu ao longo destes anos, “vendendo esta informação a outros produtores e rentabilizando algum do investimento que fiz”.

Mapa de Produtividade
Mapa de Produtividade.

Pedro Mogo: ferramenta fundamental de gestão

Para termos um exemplo de uma área completamente diferente, falámos também com Pedro Mogo, um dos primeiros produtores de abacate no Algarve e que, desde o início, usou equipamentos de Agricultura de Precisão, “como sondas de humidade, para monitorizar a água no solo, porque o abacate é sensível ao excesso de água no solo, mas também à falta, tem de ter água todos os dias”, explica-nos o produtor, adiantando que “a temperatura do solo, também medida pelas sondas, também nos permite saber a altura certa para adubar, por exemplo”.

Pedro Mogo salienta que a evolução foi enorme, principalmente ao nível das telecomunicações, porque “no início tinha de ir à exploração para poder descarregar os dados das sondas para um computador, mas hoje todo o sistema de rega integrado, vai tudo para a cloud e posso aceder em qualquer lado com o smartphone e resolver qualquer problema rapidamente: ainda há dias houve uma válvula que não abriu, o sistema deu o alarme e fui lá ao local ver o que se passava, porque se uma parcela não recebe água é perda imediata de rendimento”.

Na plantação mais recente, de 2016, decidiu fazer análise do solo e assim “separei a parcela por setores de rega de acordo com as caraterísticas de cada zona”, conta Pedro Mogo, salientando que “a AP também ajuda na prevenção de doenças, porque se a árvore tiver muita água podem desenvolver-se fungos de solo ou ácaros”.

Por fim, o produtor considera que “a Agricultura de Precisão é uma ferramenta fundamental para planear toda a gestão da exploração”.

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