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Inovação na proteção de culturas em fruticultura

Maria do Carmo Martins | Secretária Geral do COTHN-CC28/03/2022
Atualmente, a proteção fitossanitária das diversas culturas depara-se com enormes desafios causados pela saída de substâncias ativas que deixam muitas finalidades deficientemente cobertas ou mesmo a descoberto, promovendo o aumento de populações que estavam em equilíbrio e que, por isso, passam a praga. Paralelamente, as alterações climáticas têm criado condições favoráveis ao aumento das populações das pragas, ocorrência de doenças e à alteração nos ciclos de vida bem como ao aparecimento de novos inimigos.
Controlo biológico
Controlo biológico.

As orientações estratégicas a nível europeia (Estratégia Farm to Fork) vão igualmente colocando metas que limitam cada vez mais a utilização de produtos fitofarmacêuticos, assim como o mercado, pelo que a necessidade de inovar pela utilização de métodos alternativos de controlo de pragas e doenças é uma necessidade prioritária.

As utilizações destes novos tratamentos de proteção fitossanitária colocam um enorme desafio no aumento de conhecimento que possam suportar a utilização eficaz de novas tipologias de tratamentos na proteção das culturas e que passam pelos seguintes tópicos:

  • novas doenças e pragas para as quais é necessário definir metodologias de estimativas de risco/monitorização, mapas de risco, NEA e alertas de ocorrência;
  • alteração dos ciclos de vida dos organismos nocivos já identificados nas culturas, fruto das alterações climáticas, pelo que se torna necessário aferir alguns dos modelos de previsão de ocorrência, para além de ser necessário o estudo de novos;
  • Adaptação de metodologias de luta biotécnica e biológica (captura em massa, confusão sexual, aplicação de reguladores de crescimento, bioinseticidas, controlo biológico, etc) que permitam diminuir o desenvolvimento de populações de organismos nocivos e minimizar a utilização de luta química, reduzindo ou minimizando os riscos para a saúde humana e ambiente;
  • Conhecimento regional da dinâmica das populações que permita um sistema de informação de apoio à tomada de decisão do produtor.
Esta informação é fundamental para poder facultar ao produtor ferramentas que o auxiliem na tomada de decisão, especialmente no que toca à oportunidade de tratamento e à utilização de novos meios de controlo alternativos.

Na Agenda de inovação e Investigação que foi apresentada pelo COTHN-CC, no final do ano de 2021, foram identificadas as necessidades de investigação na área da proteção de culturas e que passam por:

  • Sistemas de deteção precoce de pragas e doenças (especialmente para agentes patogénicos com potencial pandémico). Os sistemas devem contemplar o estabelecimento das origens, a identificação dos impactos com o objetivo de avaliar economicamente o desenvolvimento de medidas de sistemas de vigilância e controlo. E, paralelamente, desenvolver ferramentas de precisão que permitam uma deteção precoce das doenças e pragas no campo, de forma a fazer um controlo mais eficiente das mesmas, nomeadamente, o uso de armadilhas inteligentes que fazem a identificação automática das pragas e a respetiva contagem e que sendo georreferenciadas permitem que se possa perceber a dinâmica dos inimigos ao nível da parcela e na região. Esta deteção precoce é fundamental para a aplicação de estratégias de captura em massa ou confusão sexual.
  • Alternativas ao uso dos pesticidas. A investigação deve continuar a apostar no desenvolvimento de métodos biotécnicos de controlo (mais eficientes particularmente se utilizados a larga escala) e em soluções inovadoras de base biológica para a proteção das culturas mediterrânicas.

O controlo biológico começa agora a ter um interesse cada vez maior. Existem já alguns tratamentos que passam pela largada de auxiliares e pela criação de estrutura ecológicas, como as faixas bio diversas que para alem de promoverem a atividade dos polinizadores, abrigam auxiliares existentes no ecossistema do pomar que tem um contributo mais interessante para o controlo de pragas.

O uso de estimulantes naturais das defesas das plantas e é um outro grupo que tem estado a crescer e que passa pela utilização de produtos (a maioria deles adubos bio estimulantes), que estimulam as defesas naturais das plantas e, com isso, diminuem a sensibilidade das plantas ao ataque dos inimigos.

Seguidamente apresentam-se resumidamente 2 projetos em que o COTHN-CC tem estado envolvido e onde se tem abordado algumas inovações no âmbito da proteção das culturas.

FitoAgro

Este projeto, que se focou em pragas e doenças de pomóideas, teve por objetivo estudar os ciclos de vida das novas pragas e doenças emergentes, para as quais ainda não estão definidas metodologias de estimativa do risco e NEA; ensaiar métodos de luta biotécnica e biológica, baseada essencialmente na captura em massa, confusão sexual, reguladores de crescimento, bioinseticidas, etc., e desenvolver uma plataforma com dados georreferenciados e de modelos, facilmente divulgada e analisada pelos técnicos e agricultores (SMS, portal, boletins digitais) para investigadores e serviços oficiais (podendo facilitar a exportação para fora da UE).

Em termos do último ponto foi possível a recolha de dados em formato digital, através de uma aplicação móvel, e a integração de dados meteorológicos, através da criação e associação a cada parcela de estações virtuais. Graças a esse trabalho prévio, foi então possível criar uma plataforma de visualização interativa de dados que permite monitorizar os dados meteorológicos de cada estação e associados a cada parcela, analisar os dados recolhidos no campo pelos técnicos em diferentes parcelas e anos e que inclui uma solução de visualização original, para analisar visualmente o ajuste dos ciclos de vida das pragas às observações fitossanitárias registadas, sendo esta solução replicável para diferentes pragas e modelos. Como trabalho futuro, pretende-se continuar o desenvolvimento de visualizações para outras pragas e integrar o feedback técnico dos cientistas e técnicos do projeto na seleção de modelos, permitindo assim a geração de mapas de risco.

Foi ainda possível fazer alguns ensaios de controlo biológico de algumas pragas (lepidópteros) e cujos resultados serão apresentados brevemente num Dia Aberto que terá lugar em março.

Projeto FitoAgro
Projeto FitoAgro.

FrutiFlyprotec

Este projeto aborda métodos alternativos para o controlo de moscas da fruta. Assim, e para a drosófila, está a ser testada técnica de atração-repulsão, em condições de campo, comparando 3-octenol e limoneno, como repelente, e usando armadilhas com isco alimentar como atrativo.

Paralelamente, já são conhecidos predadores generalistas e comuns que se alimentam de D. suzukii, como mosca-tigre, crisopas, hemerobídeos, antocorídeos, estafilinídeos, carabídeos, bicha-cadela, aranhas e parasitóides que urge preservar no ecossistema. Estão já disponíveis, comercialmente, parasitóides autóctones, assim como soluções microbiológicas que apresentam intervalo de segurança de 0 dias e, portanto, compatíveis com a colheita frequente. A gestão dos hospedeiros alternativos em redor das explorações é fundamental, pois alguns são hospedeiros de espécies benéficas, cruciais para a proteção biológica de conservação; outros, apesar de serem atrativos para postura, não permitem o desenvolvimento do ovo ou da larva e são, por isso, considerados como plantas armadilha.

Estes últimos podem ser usados em sebes junto às parcelas de cultura. Entre estas plantas, estão Prunus lusitanica e Prunus padus (azereiro), Phytolacca americana (tintureira), Pyracantha coccinea (piracanto) e Rubia tinctorum (granza). Os estudos sobre o efeito de voláteis que atraem ou repelem D. suzukii, no sentido de os usar em diferentes táticas, devem também ser considerados na integração de meios de proteção da cultura. A pulverização das plantas para repelir posturas, o aumento da eficiência da captura em massa, a implementação de soluções de atração-repulsão, combinando repelentes na parcela de cultura e atrativos no seu exterior, ou de atração e morte com estações armadilha, usando uma combinação de volátil e inseticida, são exemplos de soluções de sua aplicação prática.

Bibliografia

  • Vários, 2021. Grupos Operacionais de Fruticultura no período 2018-2022. COTHN-CC. ISBN: 978-972-8785-18-5

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