Instalação das culturas de primavera decorre com normalidade, apesar da conjuntura
As previsões agrícolas, em 31 de maio, divulgadas pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), apontam para a normal instalação das culturas de primavera, numa conjuntura fortemente marcada pela seca, pela escalada dos custos com os meios de produção, pela subida dos preços dos produtos agrícolas e pela suspensão das transações comerciais com a Rússia e a Ucrânia.
No milho, cereal fundamental na produção pecuária, prevê-se um aumento de 5% na área semeada, o que terá um impacto reduzido na satisfação das necessidades de abastecimento (em média, a produção nacional representa 25% do consumo interno).
Nos dois primeiros meses de guerra, as importações de milho provenientes do Canadá, Brasil e Polónia aumentaram significativamente, atingindo 140 mil toneladas e compensando a suspensão das transações comerciais com a Ucrânia.
Apesar do agravamento da situação de seca meteorológica, com 98,5% do território em seca severa e extrema, apenas existem restrições de rega nos aproveitamentos hidroagrícolas beneficiados pelas albufeiras do Monte da Rocha e da Bravura.
A diminuição de 5% na área de arroz deveu-se exclusivamente às obras de manutenção dos canais de rega de Alcácer e Grândola. A área contratada de tomate para indústria aumentou 4%, ao qual não será alheio a perspetiva de subida do preço do tomate para a indústria aquando da celebração dos contratos.
Na batata de regadio, o decréscimo de 10% na área é, em parte, explicado pela proibição de utilização de antiabrolhantes de síntese à base de clorprofame.
Nos cereais de outono-inverno prevê-se que o impacto da seca nas produtividades corresponda a um decréscimo entre 10% a 15% o que, aliado a uma área semeada historicamente baixa, agravará a dependência do abastecimento externo.
Nas fruteiras, em particular nas prunóideas, as condições meteorológicas não foram favoráveis, prevendo-se decréscimos de produtividade de 15% na cereja e de 10% no pêssego.
A escassa precipitação na primavera condicionou o desenvolvimento vegetativo das pastagens e forragens o que, conjugado com a redução da quantidade de fertilizantes aplicados nas adubações de cobertura (devido ao extraordinário aumento dos preços), resultou numa diminuição de biomassa destinada à alimentação dos efetivos pecuários. No entanto, apesar de nalguns concelhos do Alentejo as quebras de matéria verde rondarem os 80%, na maior parte das explorações foi possível manter o pleno pastoreio dos efetivos em regime extensivo durante o mês de maio.
As reduzidas disponibilidades alimentares verificadas no pastoreio direto e nos alimentos compostos (fenos e silagens), cujos trabalhos de corte, secagem e enfardamento decorreram sem constrangimentos, terão um impacto negativo nas explorações agropecuárias, nomeadamente no verão, quando as condições de pastoreio se deteriorarem.
Numa campanha fortemente marcada por fatores que poderiam desencadear um maior interesse por esta cultura, nomeadamente a subida da cotação internacional desta commodity ou o efeito da Portaria 131/20229 (diretamente ligada à invasão russa da Ucrânia), mas também por outros de sentido contrário, como o significativo aumento dos preços dos meios de produção, sobretudo dos fertilizantes, energia e combustíveis, o balanço deverá ser marginalmente positivo, estimando-se um aumento de 5% na área semeada, para os 78 mil hectares (valor muito próximo da média do último quinquénio).
De notar que a área de milho diminuiu, nos últimos 36 anos (desde a adesão de Portugal à CEE, atual UE), a um ritmo médio anual de 2,7%.
www.agriterra.pt
Agriterra - Informação profissional para a agricultura portuguesa