Numa altura em que o cuidado com a alimentação fica cada vez mais vincado no nosso comportamento, não é de admirar que o setor da fruticultura seja um dos mais dinâmicos da economia portuguesa. Mas qual tem sido a evolução do setor? Tem conseguido produzir o suficiente para abastecer o mercado nacional e ainda satisfazer as necessidades do mercado externo? Sobre isto Gonçalo Santos Andrade, Presidente da Portugal Fresh, é taxativo. “Na última década, o setor das frutas, legumes, flores e plantas ornamentais duplicou as suas exportações, de 780 milhões de euros em 2010 para 1731 milhões de euros em 2021, atingindo o valor mais alto de sempre”, afirmou, acrescentando que “exportamos agora mais de metade do valor da produção”.
Como explica o representante máximo da Portugal Fresh, e tendo por base os dados mais recentes, no primeiro semestre de 2022 o setor registou um aumento nas vendas internacionais de 16%, alcançando os 939 milhões de euros. Em volume, as vendas internacionais também cresceram 14%, atingindo quase 805 mil toneladas. Espanha é o maior comprador de frutas, legumes e flores portugueses, concentrando 29% do valor exportado. Seguem-se França, Holanda, Alemanha e o Reino Unido.
Boas notícias, certo? Talvez não. “No geral, estes resultados são positivos, mas uma análise mais fina permite concluir que o valor por quilo dos produtos não cresceu na mesma proporção do crescimento dos custos de produção, o que representa uma perda de competitividade das empresas, com muitas a passarem enormes dificuldades financeiras”, aponta Gonçalo Santos Andrade. Porque temos de ter em conta o cenário atual, em que há uma inflação ainda sem fim à vista e num ponto ainda não estável. “Vivemos um momento muito difícil no setor agroalimentar, que enfrenta a maior subida de sempre nos custos da energia, combustíveis, fertilizantes e outras matérias-primas. Ao mesmo tempo, a seca extrema, que tem afetado todo o país prejudica a produtividade e os calibres da maioria das frutas e legumes. Assim, temos um cenário de muitos desafios pela frente, também no palco internacional”, sintetiza o presidente da Portugal Fresh. O certo é que todas estas condicionantes afetam a rentabilidade dos produtores.
É verdade que todos temos de comer. Mas também é verdade que a pandemia, e agora a guerra na Ucrânia, colocam uma pressão extra aos preços de operação. Relato confirmado pela ANP que revelou que ambas as situações se refletiram ao nível da rentabilidade dos seus associados, “apesar de em termos quantitativos se terem registado valores recorde ao nível das exportações (também resultado de uma colheita significativa em 2021)”.
Mas o problema não se prendeu apenas com as restrições inerentes a cerca de dois anos de confinamento. Como lembra Gonçalo Santos Andrade a isso, somou-se a seca extrema em que, mais uma vez, o setor foi chamado a mostrar a sua enorme resiliência. “A este contexto já tão desafiante, juntou-se a guerra na Ucrânia, agravando problemas existentes: registou-se uma enorme escalada de preços nos fatores de produção, nos fertilizantes, na energia, nos combustíveis e transportes, no preço das embalagens, só para dar alguns exemplos”, acrescentou.
Tudo isto mina o esforço feito pelo setor que, no primeiro semestre do ano, conseguiu aumentar as suas exportações. “Uma análise mais rigorosa destes dados permite concluir que o valor por quilo dos produtos não cresceu na mesma proporção da subida dos custos de produção”, afirma o presidente da Portugal Fresh, que acrescenta que, “no final do ano, poderemos fazer uma análise mais detalhada do valor das exportações, mas com certeza que a soma de todos estes fatores terá impacto nos resultados das exportações anuais”.
Gonçalo Santos Andrade dá o exemplo da vizinha Espanha, “a nossa principal concorrente”. Se analisado o preço do gasóleo agrícola, apenas nos últimos oito meses, registamos uma diferença entre 25 a 50 cêntimos por litro. “Não é possível competirmos para os mesmos objetivos em condições tão desiguais”.
“Os produtos portugueses têm muita procura no mercado internacional e distinguem-se pela qualidade e sabor que apresentam.” É desta forma que Gonçalo Santos Andrade carateriza o setor, revelando que a União Europeia “é o principal destino e representa 80% do valor das nossas exportações. Dentro da UE, Espanha é o nosso maior comprador de frutas, legumes e flores, concentrando 29% do valor exportado. Seguem-se a França, os Países Baixos, a Alemanha e o Reino Unido”.
E para a obtenção destes resultados em muito têm contribuído, nos últimos anos, os frutos vermelhos, o tomate de indústria e os citrinos. Já no caso da pera rocha – dados dos associados da ANP – Marrocos é o principal comprador, com 22,1% da produção, seguido do Brasil (15,4%) e do Reino Unido (14,9%). Nos últimos três anos, estes foram os três principais compradores, registando-se apenas uma ligeira alteração – em 2019, Marrocos ocupava a terceira posição, com o Brasil a liderar.
Mas e haverá mercados emergentes? Estamos sempre atentos a novas oportunidades e mercados. É a resposta de Gonçalo Santos Andrade, que acrescenta que fora da Europa, a Ásia é um continente com enorme interesse para o setor. “Já é responsável por metade das compras mundiais de frutas e legumes. Países como a China, a Índia e a Indonésia também merecem uma atenção especial”, constata.
Num ano tudo muda. A prova é que, no ano passado, em outubro, Gonçalo Santos Andrade dizia ao Diário de Notícias que a Portugal Fresh queria atingir, até 2030, um volume de exportações da ordem dos 2500 milhões de euros, objetivo que a concretizar-se significará um incremento de mais de 48% no espaço de uma década. Hoje, com a guerra na Ucrânia e uma inflação em crescendo, a mensagem é ligeiramente diferente. Embora o objetivo se mantenha o tom é mais cauteloso. “Neste momento, atravessamos um cenário de desafios acrescidos: seca, guerra, subida de preços, inflação. Não baixaremos os braços perante essas dificuldades, mas continuaremos a reclamar aquilo que nos parece elementar. Por um lado, maior investimento público neste setor, que permita implementar medidas urgentes, priorizando, desde já, a modernização dos perímetros de rega, a par da aposta em novas reservas de água e novas fontes de água, ou seja, uma estratégia nacional para o regadio”.
O presidente da Portugal Fresh afirma ser necessário tomar medidas equivalentes às adotadas pelos países do Sul e nossos principais concorrentes: Espanha, França e Itália. A par, em simultâneo, de “diminuir a carga fiscal sobre as empresas, tornando-as mais competitivas e robustas neste mercado global. Por outro lado, e não menos importante, é preciso que, dentro da cadeira agroalimentar, haja uma maior solidariedade entre todos os atores, que resulte numa remuneração mais justa aos produtores, que estando na origem de tudo, são, no final, esquecidos e, ano após ano, repetidamente prejudicados”.
O objetivo inicial de 2.500 milhões de euros de exportações até 2030 mantém-se. Mas para isso ser possível é necessário avançar e fazer investimentos que não se têm feito até aqui. Investimentos que têm de ser feitos já.
“Queremos ainda reforçar o orçamento de promoção do setor, através da criação da interprofissional das frutas, legumes e flores de Portugal, e continuar a consolidar os principais mercados de exportação. Em simultâneo, manteremos a estratégia de promover o setor em mercados emergentes e com enorme potencial para as empresas portuguesas”, afirma Gonçalo Santos Andrade.
A prova é que a Portugal Fresh continua a promover o setor além-fronteiras. Recentemente, levou a maior representação de sempre na Fruit Attraction, em Madrid. No total estiveram presentes 46 empresas e associações. Sobre a presença em Espanha, Gonçalo Santos Andrade referiu que a promoção internacional pode contribuir para valorizar a produção e ajudar as empresas a diversificarem destinos para os seus produtos. Mas a sua mensagem não se ficou por aqui. O presidente da Portugal Fresh aproveitou para apontar os desafios do setor. “É necessária uma distribuição mais justa do valor na cadeia agroalimentar, com a indústria e o retalho. Os agricultores têm que ser melhor remunerados a fim de serem competitivos”. E a ANP aponta ainda uma outra questão, pertinente para a pera rocha. A Associação tem como objetivo para os próximos anos o valorizar a Pera Rocha do Oeste. Porque, como refere, a Pera Rocha do Oeste é um fruto de grande qualidade, não faz sentido que o seu valor de comercialização seja inferior ao de outras variedades europeias.
“Os produtos portugueses têm muita procura no mercado internacional. Se não renovarmos e modernizarmos os perímetros de rega existentes e criando novos, os países na latitude sul da Europa irão aproveitar a nossa falta de estratégia para o regadio. Todas as medidas até agora anunciadas pelo Governo são exíguas face às adotadas em Espanha, maior concorrente de Portugal a nível da produção”, conclui Gonçalo Santos Andrade.
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