A evolução tecnológica, a inteligência artificial, o investimento na sustentabilidade e a inflação motivada por guerras, instabilidade geopolítica e por questões climáticas estão a mudar os padrões de consumo e a definir novos caminhos no setor agroalimentar. O preço dos produtos continua a ser uma preocupação para os consumidores, mas há outros fatores que assumem especial importância no momento da compra dos alimentos e bebidas. A aposta em produtos proteicos, sobretudo os de origem vegetal, assim como aqueles que trazem maior benefício para a saúde – particularmente intestinal e mental –, os que são mais amigos do ambiente e do planeta e os que proporcionam maior prazer estão agora no topo das preferências dos consumidores e marcam as tendências do setor agroalimentar para o ano 2026.
Estando cumprida a necessidade básica de se alimentar, os consumidores acrescentam camadas de critérios à seleção dos alimentos e bebidas que lhes permitam obter benefícios para o corpo e a mente, vivenciar experiências familiares e/ou inovadoras e que incluam conveniência e funcionalidade. Num mundo em constante mudança e cada vez mais global, os consumidores procuram também identidade e autenticidade dos produtos, numa evocação à tradição e às origens.
Estas são algumas das conclusões que a consultora internacional Innova Market Insights, a convite da PortugalFoods, entidade gestora do Portuguese Agrofood Cluster, apresentou no dia 10 de fevereiro, no seminário ‘Trends 2026’, que juntou na Fundação Dr. António Cupertino de Miranda, no Porto, mais de 300 representantes da indústria agroalimentar e do sistema científico e tecnológico nacional.
Num contexto em que os consumidores pretendem cuidar de si e do planeta, a indústria deve, no seu portefólio de produtos e na sua comunicação, considerar as dez grandes tendências reveladas pelo estudo ‘Trends 2026’ e que vão impactar o setor agroalimentar este ano e a médio prazo:
1. Powerhouse protein: A proteína continua a ser uma poderosa aliada do bem-estar. Os consumidores procuram-na para obter saúde geral em diversos formatos e ocasiões. Três em cada cinco consumidores inquiridos inclui ativamente mais proteína na sua dieta e mais de 32% (vs 2025) dos consumidores estão atentos ao lançamento de novos alimentos e bebidas que demonstrem que a proteína presente traz benefícios para a sua saúde. O leque de benefícios inclui suporte capilar, saúde oral, controlo do peso, antienvelhecimento/envelhecimento saudável, saúde digestiva/intestinal, cardiovascular, óssea, imunitária, cerebral, ocular, articular e da pele, assim como energia/alerta. Face a 2025, verifica-se um crescimento de 29% no lançamento de novos produtos alimentares e bebidas que trazem alegações relacionadas com proteína e controlo de peso.
2. Gut Health Hub: Os consumidores veem cada vez mais a saúde digestiva como a porta de entrada para o bem-estar holístico, o que impulsiona a procura de benefícios para o corpo e para a mente. 59% dos inquiridos considera que a saúde digestiva é muito importante e 44% afirma que, quando melhorou a saúde digestiva, notou benefícios em áreas como energia, pele ou imunidade. Face a 2025, verifica-se um crescimento de 42% no lançamento de novos produtos alimentares e bebidas com argumentações relacionadas com a saúde intestinal/digestiva.
3. Layers of delight: A indulgência está a transformar-se numa experiência multidimensional, elevando o momento e o mood ao combinar riqueza sensorial com bem-estar. Os consumidores inquiridos afirmam que os momentos reconfortantes, a melhoria do mood, a experiência sensorial rica e o prazer mais saudável constituem os quatro pilares da indulgência que procuram nos alimentos e bebidas. 60% afirma que gosta de explorar coisas novas quando se dá ao luxo de ser indulgente. O conforto impulsiona o número de novos lançamentos com este argumento: 107%. Quase metade dos novos lançamentos (46%) promete uma nova experiência. Verifica-se um aumento de 26% no lançamento de novos produtos alimentares que prometem momentos de prazer.
4. Beverages with purpose: As bebidas são das categorias mais inovadoras em matéria de bem-estar, apresentando produtos pensados para hidratação, praticidade e funcionalidade. 51% dos consumidores afirma que aumentou o consumo de bebidas por serem saudáveis. Açúcar reduzido e feito com ingredientes naturais são argumentos presentes em 23% das bebidas analisadas; 13% evidencia alto teor/fonte de proteína e 12% a presença de ingredientes como cálcio, ferro ou pro/prébiótico. Verifica-se um crescimento de 51% no lançamento de novos refrigerantes e bebidas energéticas com argumentos prébióticos.
5. Authentic plant-based: O conceito de produtos de base vegetal está a passar da imitação para a nutrição, com os consumidores a adotarem alimentos naturalmente ricos em proteína vegetal devido aos seus benefícios funcionais. 55% considera que estes produtos devem afirmar-se com identidade e benefícios próprios, em vez de existirem apenas como versões substitutivas de produtos convencionais. As fibras são também um argumento relevante relacionado com a saúde, evidenciado na opinião de 16% dos inquiridos.
6. Made for moments: A inovação para ocasiões de consumo em casa tem evoluído através de snacks, refeições frescas e ofertas em monodose. Dos 18% de inquiridos que vivem sozinhos, 64% faz as principais refeições (pequeno-almoço, almoço e jantar) sozinho.
7. Worth every bite: Com o aumento da pressão económica, a acessibilidade e a disponibilidade de produtos a preços competitivos tornam-se fatores-chave para a fidelização e escolha do consumidor. 27% dos inquiridos afirma ter aumentado o consumo de produtos de marca própria. Destes, 49% considera que oferecem uma boa relação custo-benefício e 41% afirma que apresentam boa qualidade. Regista-se um crescimento de 7% no lançamento de novos produtos de marca própria.
8. Mind balance: O bem-estar mental e emocional é uma prioridade crescente, à medida que os consumidores recorrem a alimentos e bebidas mais naturais em busca de energia, alívio do stress e equilíbrio mental. Três em cada cinco consumidores da geração Z e millennials afirmam estar preocupados com a sua saúde mental, dando especial atenção ao stress, ansiedade, foco, níveis de energia e memória. O aparecimento dos adaptogénicos está a introduzir uma nova vaga de produtos, com um crescimento de 18% nos lançamentos.
9. Crafting tradition: Em tempos de incerteza, a herança gastronómica influencia as escolhas quando oferece conforto, identidade e autenticidade. 23% dos inquiridos continua a utilizar receitas tradicionais; 17% afirma explorar outras culturas através da comida. Mais de um terço refere que associar alimentos a tradição, memórias e sentimentos lhe traz felicidade, conforto e conexão com a família.
10. Justified choices: A sustentabilidade continua a ser um fator decisivo quando é tangível, transparente e credível. Dois em cada cinco consumidores afirmam que a sustentabilidade é importante na compra de alimentos e bebidas. Revelam ainda disponibilidade para pagar mais por produtos sustentáveis quando as marcas demonstram apoio a produtores ou comunidades locais, proteção ambiental ou utilização de embalagens sustentáveis.
Foi igualmente destacado o trabalho desenvolvido pela PortugalFoods na promoção internacional da indústria agroalimentar nacional, no âmbito da Agenda Mobilizadora VIIAFOOD (Plataforma de Valorização, Industrialização e Inovação Comercial para o Agroalimentar – n.°C644929456-00000040), especialmente no pilar oito – Promoção e Internacionalização do Setor Agroalimentar –, com destaque para as ações realizadas no Japão e na Coreia do Sul, que evidenciam a relevância estratégica destes dois países para o setor e o potencial de aprofundamento das relações económicas.
“As tendências do setor agroalimentar para 2026 confirmam uma evolução clara nas preferências dos consumidores, que procuram cada vez mais produtos que combinem saúde, sustentabilidade e prazer, sem comprometer o valor económico. Esta conjugação de fatores desafia o setor a inovar de forma responsável e colaborativa, reforçando o papel estratégico das cadeias agroalimentares nacionais e internacionais na promoção de sistemas alimentares mais saudáveis, resilientes e inclusivos”, refere Deolinda Silva, diretora executiva da PortugalFoods. “É interessante constatar que a saúde, o prazer, a sustentabilidade ambiental e a acessibilidade económica deixam de ser valores isolados para se tornarem pilares integrados de decisão, orientando o desenvolvimento de produtos e modelos de negócio mais alinhados com os desafios sociais e ambientais que enfrentamos”, acrescenta.
“O estudo ‘Trends 2026’ evidencia uma convergência clara entre inovação científica, expectativas do consumidor e responsabilidade sistémica. Observamos que áreas como as proteínas alternativas, a saúde digestiva e os alimentos funcionais deixam de ser nichos para se tornarem motores centrais de crescimento, enquanto fatores como prazer, sustentabilidade e preço passam a ser avaliados de forma integrada nas decisões de compra a nível global”, refere Enric Tardio, da Innova Market Insights, consultora que anualmente monitoriza o comportamento do consumidor e o lançamento de novos produtos a nível global, desenvolvendo uma análise aprofundada às principais tendências de consumo e apontando as oportunidades de inovação para a indústria e para as marcas alimentares.
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