Há fatores de mercado muito fortes que vão ser difíceis de suplantar, como a legislação e fatores culturais
A biotecnologia foi a temática em destaque no Agrifood Open Day - evento anual da BGI que integra vários programas de inovação e de empreendedorismo, incluindo ações do colab Food4Sustainability, pitches e sessões de capacitação -, mote para uma conversa com Gonçalo Amorim, CEO da aceleradora e incubadora de startups portuguesa. Nas suas palavras, “há um conjunto de exceção de agricultores que estão muito avançados na temática da biotecnologia ao serviço da agricultura”, mas muitos produtores não têm ainda instituídas as ferramentas “nas matérias de solo, fertilidade, funcionalidade, biodisponibilidade dos micro e macronutrientes e proteção da cultura, através de técnicas biológicas”.
Este é um evento anual importante para nós, porque consubstancia todos os trabalhos que temos vindo a desenvolver ao longo de vários anos.
Apresentámos vários programas de inovação e de empreendedorismo, dedicados a alguns projetos estratégicos, nomeadamente o EU Biotech, do qual a BGI faz parte integrante, e que é uma nova iniciativa a nível europeu liderada pelo EIT Food. Apresentámos o blueprint do Biotech Alliance, cuja temática de este ano foi dedicada ao que a biotecnologia nos oferece, como possibilidades de desenvolvimento de novos produtos, mas também de reaproveitamento da economia circular, no que toca ao aproveitamento de produtos de origem animal, vegetal e humana para a produção, por exemplo, de insumos ou de fatores de produção para a agricultura.
Há alguns anos criámos um laboratório colaborativo, o Food4Sustainability, que faz uma componente de inovação e investigação aplicada, e, portanto, foi um casamento perfeito no Agrifood Open Day, em que conseguimos trazer a perspetiva europeia do que está a ser feito a nível de políticas e vetores de investimento. O Biotech Alliance é um projeto bastante ambicioso que vai lançar dentro de dois anos uma Joint Undertakings (JU), que são projetos tipicamente na casa dos dois, três, quatro mil milhões de euros, com 50% de investimento privado e 50% de investimento realizado pela Comissão Europeia. Estamos a envolver parceiros nacionais, mas também a levar estes parceiros para uma lógica europeia. O evento focou-se nestas questões macro, de políticas públicas, mas também no estado-da-arte na área da biotecnologia.
Realizámos ainda uma sessão dedicada à educação, à capacitação dos agricultores, dos empreendedores e de vários stakeholders da cadeia agroalimentar. Além de termos dado uma perspetiva de capacitação da microbiologia de solos, feita pelo Colab, terminámos com uma série de pitches de vários programas, nomeadamente do EWA - Empowering Women Entrepreneurs, que é um programa liderado pela BGI.
Excelente pergunta. A biotecnologia ao serviço da agricultura é um tema relativamente novo. No entanto, já estão a ser feitos bastantes pilotos e iniciativas, mas que não são conhecidos. Através do Food4Sustainability, em que um dos pilares é a criação de conhecimento e a transferência desse conhecimento dos colabs para o mercado, nós trabalhamos, por exemplo, com o Clube de Produtores do Continente e com o Pingo Doce, onde juntamos uma centena de fornecedores de produtos frescos, hortícolas, produtores de bovinos, lácticos, etc.
Diria que já há um conjunto de exceção de agricultores que estão muito avançados na temática da biotecnologia ao serviço da agricultura, nomeadamente, na inoculação de solos, biofertilizantes, bioestimulantes e, em alguns casos mais raros, num conjunto de práticas avançadas que vão para além do banal da agricultura regenerativa e que passam por maneio holístico ou introdução dos animais no campo para aumentar a matéria orgânica.
Olhando para a realidade portuguesa, verificamos que há muito poucos produtores que estão muito avançados nas matérias de solo, de fertilidade, funcionalidade, biodisponibilidade dos micronutrientes e macronutrientes e proteção da cultura, através de técnicas biológicas, e há muitos que estão completamente obliviados e que não têm ainda estas ferramentas instituídas no seu dia-a-dia de trabalho.
Estamos a trabalhar estas temáticas há meia dúzia de anos, e tudo que é novidade traz complexidade, insegurança, incerteza, risco, e até, diga-se, aproveitamento por alguns grupos económicos que estão a vender produtos que não estão devidamente homologados ou certificados, e que não são eficazes. Também há players que sabemos que estão a vender produtos que não cumprem com as normativas europeias, por exemplo, a nível de densidade microbiana. Estamos a falar muitas vezes de micro-organismos vivos, que estão em meio líquido ou até liofilizados e que estão sujeitos a ciclos de temperatura e de armazenamento que não são ideais.
Em Portugal, há ainda uma situação que agrava esta realidade e é que já não temos extensão territorial, o que significa que muitos produtores estão verdadeiramente reféns dos fornecedores de produtos, dos chamados fatores de produção, sejam eles fertilizantes, estimulantes ou pesticidas. Na prática, os produtores estão numa situação muito difícil, porque são aconselhados pelas empresas que lhes vendem produto e não têm oportunidade de ter um aconselhamento isento. Claro que aqueles que procuram conhecimento vão à procura das soluções. Existe esta ambivalência.
A tecnologia está lá. Estamos a trabalhar a economia circular e para nós não há resíduos, há nutrientes, que são mais ou menos difíceis de recuperar. Trata-se de subprodutos da aquacultura, da plantação em estufas, de agricultura vertical e da depuração de substratos líquidos ou de fertirrigação, fatores de crescimento para esta agricultura vertical. Também produzimos microalgas.
Através do projeto ‘AmpliAqua’, numa mesma unidade, instalada na Nazaré, produzimos peixe, filete e subprodutos de peixe, que são nutrientes que nos permitem criar os chamados meios de cultura onde inoculamos e propagamos fungos e bactérias, que, por sua vez, têm funções específicas na solubilização de determinados macro ou micronutrientes, na proteção da cultura ou no stress abiótico, por exemplo.
O Agrifood Open Day decorreu a 24 de novembro de 2025 no Unicorn Factory Lisboa.
A nível internacional, e não só português, o empreendedorismo no feminino é uma exceção, ou seja, menos de uma em cinco mulheres opta por iniciar um negócio, uma startup. As nações mais avançadas, onde existe mais capital, como os EUA ou Israel, estão mais evoluídos nesta matéria, até porque os próprios investidores privilegiam mais gestoras. Está demonstrado por estudos científicos que a forma como o cérebro humano masculino e feminino funcionam são diferentes, e a capacidade de uma mulher para gerir múltiplas variáveis ao mesmo tempo (de ser multitasking) é muito superior à de um homem.
Portanto, há muitas vantagens: para além da agressividade, para além da diplomacia económica, para além da motivação de equipas, há a imensa eficiência que se perde se não tivermos mais mulheres a gerir negócios. E essa é uma motivação que nos impele a fazer este tipo de programas. Acredito que equipas balanceadas têm de ter idealmente 50% a 60% de mulheres.
A nossa motivação, enquanto BGI, é que temos uma taxa de sucesso a nível de criação de startups superior a dois terços. Isto é um fenómeno anormal, pois na maior parte das startups geradas a nível mundial apenas 10% sobrevivem. E uma das razões, seguramente, pela qual nós teremos esta graça é por olharmos
muito a inclusão de gestoras e para boas equipas com recursos financeiros razoáveis, que agregam tecnologia.
Sim. Liderança e questões culturais, pois sabemos que os agricultores são extremamente resistentes e cautelosos. E têm razões para o ser, mas essa cautela tem o custo da inação. O agricultor tem pouco tempo, está focado nas atividades diárias do seu negócio e muitas vezes não vem a eventos, não faz networking, não procura novas soluções nem investe em conhecimento em rede. Os agricultores que estão em pilotos contam-se pelos dedos. Existem quatro grandes empresas que lideram 80% das sementes que são cultivadas, dos fatores de produção e das vendas de escala que são consolidadas (a Bayer, a Syngenta, a Corteva e a BASF). Isto é, de facto, dependemos excessivamente de uma concentração de mercado que não é boa.
Na temática tecnológica, as soluções estão cá todas. Para sermos concretos, não precisamos de inventar mais nada. Precisamos é de aplicar o que temos na biotecnologia, na regeneração dos solos, na agricultura resiliente, nos subprodutos que advenham da perda no campo ou na transformação.
Na verdade, a agricultura regenerativa pode ter mais densidade nutricional, ou seja, eu por quilo ou por litro estou a vender muito mais, um alimento muito mais denso do que na agricultura intensiva, convencional. Portanto, a indústria quer vender quilos. Nós queremos vender nutrição.
Infelizmente há fatores de mercado muito fortes que vão ser difíceis de suplantar, como a legislação e fatores culturais. E esses são os maiores desafios que enfrentamos. Não se trata de um problema de falta de alimento. É óbvio que o real custo do alimento não é aquele que nós pagamos, porque se não houvesse a Common Agricultural Policy os alimentos seriam cinco vezes mais caros. Isto é assim em todo o mundo, a agricultura é subsidiada e se não fosse havia pior nutrição e mais doenças.
Muitas vezes o que acontece são lobbies de grupos que se estão a proteger, sob o argumento de que a alimentação biológica nunca vai alimentar o mundo. O que é necessário é mais evidência. Ou seja, evidence-based, decision-making.
Existe uma assimetria na distribuição de dividendos e essa é a questão que temos de endereçar se queremos ter uma agricultura mais sustentável, pois só conseguimos pagar bem se tivermos dinheiro, só conseguimos recrutar os melhores talentos se formos capazes de nos atrair e para isso é preciso ter margens. Ao nível ambiental, 90% da agricultura mundial é ecologicamente nociva. Estamos num ponto de viragem absolutamente fundamental para a sobrevivência do ser humano e do planeta e temos de acelerar em muito a transição. E não estamos a conseguir fazê-lo à velocidade que necessitamos.
A autonomia e resiliência alimentar é um tema que preocupa muito a Europa. A alimentação tem o reconhecimento de elevadíssimos níveis qualitativos de segurança alimentar. Mas o problema é que, neste momento, não é autónoma. Por exemplo, falando de químicos de síntese, cerca de 40% dos fertilizantes são importados da Rússia. Ninguém fala nisto. A maior arma que podemos ter relativamente a uma guerra é o alimento. E, nesse aspeto, tanto a Rússia, como a Turquia e a China são países que podem determinar uma guerra com a Europa pela fome.
O continente europeu está a importar cerca de 70% da proteína que consome, e essa é uma questão que preocupa muito a quem está nos sistemas agroalimentares. Os acordos com o Mercosul alimentam-nos de comida barata, mas estamos a esquecer várias coisas: os standards que estamos a provocar na intensificação da produção nos países de origem desta proteína animal e vegetal são absolutamente insustentáveis. Portanto, estamos a empobrecer os solos destas nações - Brasil, América do Sul, Chile, Argentina, África, etc. -, o que é uma hipocrisia do pior que pode existir. Segundo ponto, vamos causar fome nestes países.
Terceiro ponto, estamos a importar alimento (e não em 10%, mas em 70% do que consumimos) muitas vezes com riscos fitossanitários, seja na origem, seja na forma como foi produzido e até, muitas vezes, na forma como foi conservado. E não há regulamentação. Um agricultor europeu não pode utilizar determinado tipo de químicos, mas um exportador para a Europa não tem proibições. E a Europa fecha os olhos.
Portanto, por um lado, estamos a empobrecer a agricultura europeia, porque estamos a enriquecer os fatores de produção, mas, simultaneamente, estamos a deixar de produzir. Por outro, estamos a poluir e a empobrecer as nações que nos estão a fornecer alimentos. Este cocktail é explosivo.
Quando os líderes, que são quem tem de iluminar o caminho, passam a um modus operandi hipócrita, eu diria que está tudo muito mal orientado. E as consequências não podem ser boas. Lamento a visão pessimista, mas a mensagem é esta. Se não encararmos os problemas de frente não os vamos resolver.
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Agriterra - Informação profissional para a agricultura portuguesa