Gonçalo Moreira, gestor de projetos da OLIVUM - Associação de Olivicultores e Lagares de Portugal
23/02/2026
Gonçalo Moreira, gestor de projetos da OLIVUM .
De acordo com o balanço de campanha dos associados da OLIVUM - Associação de Olivicultores e Lagares de Portugal, foram extraídas 112 mil toneladas de azeite nesta campanha.
Tendo em conta que a associação representa cerca de 70% da produção nacional, estima-se que Portugal atinja aproximadamente 160 mil toneladas de azeite, o que traduz uma redução de 9,6% face às 177 mil toneladas registadas em 2024/2025.
Esta quebra estava, em larga medida, antecipada. O ano foi marcado por um ciclo de contrassafra, com maior incidência na variedade Arbequina, e por condições meteorológicas exigentes: temperaturas muito elevadas durante o verão, ausência prolongada de precipitação até ao outono e, posteriormente, períodos de pluviosidade intensa já em plena campanha.
O impacto fez-se sentir sobretudo nos rendimentos iniciais de extração, que evoluíram positivamente à medida que as temperaturas desceram.
Importa, contudo, sublinhar um aspeto estruturalmente relevante: não se registaram incidências significativas de pragas ou doenças, o que permitiu manter elevados padrões de qualidade e uma percentagem muito expressiva de azeite virgem extra.
Num mercado internacional cada vez mais exigente, este é um ativo estratégico. Portugal continua a afirmar-se não apenas pelo volume, mas sobretudo pela qualidade e consistência da sua produção.
Se 2025 confirmou a capacidade de adaptação do setor, 2026 inicia-se sob o signo da incerteza climática. As recentes depressões atlânticas que afetaram o território nacional no final de janeiro e início de fevereiro, incluindo a depressão ‘Kristin’, são mais um sinal de que os fenómenos extremos tendem a intensificar-se. Nesta fase, é prematuro quantificar os impactos no olival, aguardando-se a conclusão dos levantamentos em curso nas zonas mais afetadas.
A oliveira mantém, ainda assim, uma notável plasticidade ecológica. A sua adaptação às condições edafoclimáticas nacionais, aliada ao investimento realizado nas últimas décadas em sistemas de rega eficientes, mecanização e gestão técnica de precisão, reforça a capacidade das explorações. A resiliência, porém, exige estratégia: gestão criteriosa da água, conservação do solo, inovação varietal e recurso crescente a ferramentas digitais de monitorização.
No plano estrutural, 2026 será igualmente marcado pela evolução da Política Agrícola Comum (PAC). O setor necessita de previsibilidade regulatória que assegure estabilidade aos investimentos de médio e longo prazo, particularmente num sistema produtivo que combina olival tradicional, em copa e sebe.
É essencial que a PAC continue a promover a competitividade e a sustentabilidade, mas com equilíbrio. As exigências ambientais devem ser acompanhadas de instrumentos que garantam a viabilidade económica das explorações. A transição para modelos produtivos cada vez mais eficientes em termos de uso de recursos, redução de emissões e preservação da biodiversidade só será plenamente conseguida se existir coerência entre ambição ambiental e realidade económica.
A evolução do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul poderá representar uma oportunidade de reforço das exportações e de diversificação de mercados para o azeite português.
Contudo, é fundamental assegurar que os produtores europeus possam competir com operadores de fora da Europa em condições equivalentes, cumprindo todos os intervenientes as mesmas exigências de qualidade e as mesmas normas ambientais, fitossanitárias e laborais. A defesa da reciprocidade não é protecionismo, é uma condição básica para preservar a sustentabilidade económica e social do setor.
O balanço da campanha 2025/2026 confirma que o setor olivícola nacional mantém uma base sólida. Apesar da ligeira quebra produtiva, os resultados ficaram alinhados com as previsões iniciais, e a qualidade manteve-se como marca distintiva.
Para 2026, as perspetivas assentam, de forma muito clara, na valorização do azeite português através da sustentabilidade certificada. Neste contexto, assume particular relevância o PSA - Programa de Sustentabilidade do Azeite, desenvolvido pela OLIVUM, cuja primeira certificação foi atribuída no final de 2025.
O Selo PSA, já presente no mercado, permite identificar azeites produzidos segundo rigorosos critérios ambientais, sociais e económicos, abrangendo toda a cadeia de valor, do olival ao lagar, passando pelo embalamento até à garrafa.
Trata-se de uma certificação pioneira à escala internacional, estruturada desde 2022, que consolida Portugal como referência global na sustentabilidade oleícola.
Mais do que um instrumento de comunicação, o PSA constitui uma ferramenta estratégica de criação de valor acrescentado, com o objetivo de impulsionar as boas práticas e garantir a sustentabilidade do setor.
Num mercado onde o consumidor está cada vez mais atento à origem, à rastreabilidade e às práticas produtivas, a certificação reforça a credibilidade do setor e diferencia positivamente o azeite português. A atribuição do primeiro selo marcou o início de uma nova etapa, estando já vários produtores em processo de certificação, o que antecipa uma expansão progressiva da sua presença no mercado.
A sustentabilidade deixa, assim, de ser apenas um requisito regulatório para se afirmar como fator de competitividade e de posicionamento internacional. O olival português tem hoje a oportunidade de associar, de forma inequívoca, qualidade e responsabilidade, transformando essa associação num ativo económico.
Num ambiente global marcado por incerteza climática, transformações regulatórias e novas dinâmicas comerciais, o setor demonstra estar preparado para enfrentar 2026 com confiança. A resiliência evidenciada em 2025 resulta de investimento, profissionalização e visão estratégica. O desafio agora é consolidar essa trajetória, aprofundando a inovação, reforçando a competitividade e afirmando o PSA como símbolo de um azeite português sustentável, credível e valorizado nos mercados nacionais e internacionais.
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