Após as tempestades que assolaram o país, com prejuízos devastadores para a agricultura, os muitos desafios que já se avizinhavam para o setor, com os crescentes impactos das secas e cheias na produção das culturas e a previsível redução orçamental da PAC em 20%, fazem de 2026 um ano de incerteza e muito trabalho. O acordo comercial em curso com o Mercosul divide opiniões, como pode ler nesta reportagem exclusiva, em que os dirigentes máximos das principais confederações e associações setoriais partilham perspetivas para o ano agrícola.
Luís Mira traça um balanço do ano agrícola de 2025 “marcado por seca e dificuldades relacionadas com a água, bem como por instabilidade nos preços e incerteza associada a questões comerciais internacionais”, como as taxas impostas pelo mercado americano. Detalhando que se registaram boas produções em alguns setores, mas quebras noutros, como no vinho e no azeite, o secretário-geral da CAP considera que o aumento dos custos de produção foi um fator determinante.
Em entrevista à Agriterra, o responsável alerta que os desafios para a agricultura em 2026 são muitos, desde logo pela forma negativa como o ano arrancou, “com os problemas climatéricos, com água muita intensa”, incluindo a tempestade Kristin. Destaca ainda as negociações da Política Agrícola Comum (PAC) como o principal desafio, sublinhando que as decisões tomadas agora serão determinantes para os próximos anos. “A atual proposta atual é muito má e vai obrigar-nos a uma pressão bastante grande”. Criticando a forte redução orçamental [na ordem dos 20%] e considerando que a junção das verbas da PAC com os fundos da Coesão, o Fundo Social Europeu, a Transição Justa e outros instrumentos europeus”é um mau princípio”, Luís Mira manifesta muita preocupação com “o fim da arquitetura da PAC e a sua renacionalização”, alertando que o setor agrícola europeu poderá perder peso político, num contexto em que representa apenas 4%.
Quanto aos acordos comerciais em curso, nomeadamente o Mercosul, o secretário-geral reitera que a CAP é favorável a este acordo, desde logo porque a União Europeia (UE) “é um bloco comercial em que a balança do agroalimentar tem um excedente de 26 mil milhões de euros. Quando os EUA fecham a porta, temos de ir à procura de outros mercados”. Para Portugal, “trata-se de uma oportunidade estratégica”, dado o mercado de 210 milhões de consumidores de língua portuguesa, com uma proximidade cultural “que mais nenhum país europeu tem”, e que permite o reconhecimento dos rótulos em português e a replicação da proteção das denominações de origem. Considerando que o acordo traz mais garantias, incluindo mecanismos de salvaguarda e possibilidade de fiscalização dos métodos de produção, o responsável vê oportunidades no vinho, na fruta, no azeite e nos lácteos, mas alerta que é necessário “investir em promoção e trabalhar ativamente esses mercados”.
Relativamente à questão das enormes exigências ambientais europeias e da eventual desigualdade face a estes novos parceiros comerciais, Luís Mira rejeita as críticas, argumentando que “as importações já se fazem e essas restrições existem” e que os grandes operadores internacionais “não aceitarão produtos que não cumpram esses padrões exigentes da UE. Nenhuma cadeia à escala europeia quer ter um produto que venha do Brasil ou da Argentina que seja feito com mão-de-obra infantil ou com práticas proibidas na EU”, diz.
Outro grande desafio do futuro é “a utilização das novas tecnologias que já estão disponíveis no setor agrícola: sensores, gestão de dados, inovação na pecuária extensiva, agricultura regenerativa e conhecimento avançado da biologia do solo. Defende que a tecnologia já existe, mas “falta aplicá-la em maior escala e democratizar o seu acesso em todo o território”. O modelo agrícola evoluiu “de uma agricultura baseada na mecanização intensiva e uso massivo de adubos sintéticos” para práticas mais sustentáveis, o “que requer uma transição, uma adaptação e uma nova forma de ser agricultor”, conclui.
O ano de 2025 “ficou marcado por uma acentuada imprevisibilidade climática”, considera também Nuno Serra. “Assistimos a períodos de temperaturas extremamente elevadas em fases críticas do ciclo produtivo, bem como a episódios de precipitação intensa e frio atípico em diversas regiões”. Estas oscilações “tiveram impactos significativos no desenvolvimento de várias culturas, em particular nas frutícolas e no olival, provocando quebras expressivas na produção”, sublinha. Apesar destas perdas, “o mercado não reagiu de forma proporcional à redução da oferta, o que agravou a quebra de rendimento dos agricultores e aumentou a fragilidade económica das explorações”, lamenta o secretário-geral da CONFAGRI.
O segundo semestre “revelou-se especialmente dramático”, com os incêndios a devastarem instalações agrícolas, equipamentos, áreas florestais, pomares e milhares de hectares de superfícies forrageiras, detalha Nuno Serra. Assim, 2025 “ficará na memória como um ano de forte quebra de rendimentos e de profunda incerteza. Muitos agricultores enfrentaram dificuldades acrescidas, não apenas devido às perdas produtivas, mas também à imprevisibilidade no pagamento dos apoios prometidos, incluindo aqueles destinados a quem investiu no setor agrícola”, acusa o responsável.
Quanto a perspetivas para 2026, “o ano antecipa-se particularmente desafiante para o setor agroalimentar, e não pelas melhores razões”, antevê o secretário-geral da CONFAGRI. Em primeiro lugar, “impõe-se a necessidade urgente de repor a atividade de centenas de agricultores e produtores pecuários severamente afetados por tempestades e outros fenómenos climáticos extremos”, alerta. Atendendo à escassa dotação financeira ainda disponível no PEPAC, “torna-se imprescindível que o Governo encontre soluções financeiras alternativas que permitam a rápida retoma da atividade, evitando o abandono das explorações”, conclui Nuno Serra.
Por outro lado, 2026 “será decisivo na negociação da futura PAC pós-2027, pois a Comissão Europeia (CE) apresentou uma proposta que é altamente lesiva para o setor e totalmente disruptiva em relação aos princípios basilares da mais comum e transversal das políticas europeias: a agrícola”, critica o responsável. Com uma redução estimada de cerca de 20% na dotação financeira, a nova proposta transfere para os Estados-Membros maior responsabilidade na definição dos apoios ao setor agrícola, provocando uma renacionalização que “irá gerar distorções no mercado interno e promover uma Europa a duas velocidades no setor agroalimentar”. Acresce ainda a criação de um Fundo Único que agrega investimentos em inovação, conhecimento, bioeconomia e gestão da água, colocando-os em concorrência direta com as verbas destinadas à coesão territorial. “A posição do Governo português nesta negociação será determinante para a competitividade e sustentabilidade do setor agrícola nacional”, explica.
Por fim, destacam-se os acordos comerciais internacionais, que se revestem de enormes oportunidades, mas que - nos moldes atuais de negociação - são enormes bombas devastadoras para o mercado interno europeu, apresentando graves ameaças aos seus produtores. “Não é aceitável que, após anos de adaptação a exigentes metas ambientais impostas pela UE, os produtores europeus se vejam confrontados com importações provenientes de países terceiros que não cumprem os mesmos padrões”. Defender a equidade nas regras do comércio internacional será, em 2026, uma prioridade incontornável para o futuro do setor agroalimentar”, apela o secretário-geral da CONFAGRI.
José Núncio defende que “2025 foi um ano muito sui genenis”, fortemente condicionado pelas condições climáticas, porque choveu bastante, mas muito tarde (só a partir de fevereiro), o que atrasou a instalação das culturas de primavera-verão, que são as culturas de regadio. “Apesar de o ano ter sido relativamente favorável”, esta realidade teve impactos na colheita, “e o atraso na sementeira refletiu-se numa quebra de produção, especialmente nas principais culturas do regadio, como o milho e o arroz”, já que “as condições de solo excessivamente húmido impediram o trabalho atempado das terras”, explica o presidente da FENAREG.
Para além dos constrangimentos produtivos, 2025 ficou marcado “por preços historicamente baixos nos cereais”. Esta conjugação de menores produções e preços de mercado reduzidos contribuiu para “a diminuição de áreas cultivadas”. Outras culturas, como o tomate, “também sofreram atrasos nas plantações e na colheita” e registam preços baixos. No olival e nos frutos secos, os preços são mais razoáveis, mas também se sentiram quebras associadas a fatores climáticos, como a insuficiência de frio na amêndoa, detalha.
Para 2026, “temos uma certeza: falta de água não irá haver”, comenta José Núncio. Contudo, as recentes cheias agravadas pelos ventos fortes provocaram “muita destruição e danos graves” nas infraestruturas agrícolas, “sobretudo nas zonas de vale (Sado, Tejo, Mondego, Sorraia), “afetando margens de rios, valas de drenagem e redes de rega”, lamenta.
“Ainda é cedo para contabilizar, mas seguramente vamos ter atrasos nos trabalhos agrícolas e dificuldade em recuperar terrenos inundados ou cobertos por detritos e areias”, com “grandes prejuízos a registar no campo, que podem ascender a dezenas de milhões de euros”. Face a um “grau de destruição nas zonas ribeirinhas que não tem precedentes”, vai ser “um grande desafio para o Governo encontrar verbas para a reconstrução”, a qual “poderá prolongar-se por vários anos”, prevê o presidente da FENAREG, sublinhando: “o setor agrícola necessita de apoio urgente”.
Acresce que “as expetativas de preços para 2026 indiciam a manutenção de valores baixos, o que dificulta a sustentabilidade da atividade agrícola”, conclui.
No âmbito dos centros de competências, 2025 “foi um ano característico da transição de quadros comunitários”, afirma Gonçalo Morais Tristão. Para estes centros, dependentes de financiamento público, “foi um período de expectativa, e gorada, porque em 2025 não surgiu nada. Mas saiu há poucos dias a portaria e o aviso dos grupos operacionais, para projetos que vão ser financiados”, esclarece o presidente da direção do COTR. Neste contexto, “foi um ano difícil”, em que os centros de competências exerceram as suas atividades “já com alguns constrangimentos, porque os financiamentos acabaram, e estávamos à espera que surgissem novos, o que não aconteceu”. Contudo, “estão agora em cima da mesa as candidaturas aos grupos operacionais, até abril, e estamos a construir essas candidaturas”, reforça o responsável, traçando para 2026 uma perspetiva mais positiva, com condições mínimas para relançar projetos e reduzir a incerteza financeira.
Quanto aos principais desafios que afetam todo o setor, Gonçalo Morais Tristão lamenta a violência recente dos fenómenos climáticos e defende que os agricultores são dos primeiros a sentir os impactos das alterações climáticas, “há muito tempo, e com grande capacidade de adaptação”. O desafio “é, cada vez mais, preparação e o setor tem trabalhado muito bem nesse sentido”. Não obstante, “certos fenómenos extremos são difíceis de precaver”, conclui.
Sublinhando que estes eventos “devem servir de aprendizagem para preparar o futuro”, o responsável acredita que a agricultura “tem sabido adaptar-se e mitigar as consequências das alterações climáticas, muito com a ajuda das tecnologias”.
O COTR trabalha há muitos anos o uso eficiente da água e a escassez de recursos hídricos, procurando aumentar a eficiência produtiva sem necessariamente aumentar o consumo de água. Este caminho “tem produzido resultados muitíssimo positivos e, portanto, a agricultura, com a ajuda deste tipo de organizações, vai continuar a fazer isso em 2026 e no futuro”.
Relativamente à PAC, “o horizonte tem nuvens mais negras”, comenta o presidente do COTR. Considerando que o ponto de partida da proposta da CE é “muito mau, por desproteger o setor agrícola”, manifesta preocupação com a eventual redução de verbas e com a dependência do Orçamento do Estado, “o que poderá penalizar países com menor margem financeira, como Portugal”. Ainda que se trate de “um grande desafio”, acredita que o processo negocial nos próximos dois anos “poderá melhorar bastante a proposta final”.
Quanto aos acordos comerciais, Gonçalo Morais Tristão assume-se “completamente a favor” dos eminentes acordos com o Mercosul e com a Índia, argumentando que, face ao fecho crescente do mercado norte-americano (o nosso mercado principal), a União Europeia deve “tentar construir mercados noutras regiões”. Perante a necessidade de proteger determinadas produções europeias, “sabemos que há cláusulas de salvaguarda, quotas e mecanismos de compensação”. O dirigente concorda que a regulamentação europeia “é particularmente exigente em matéria ambiental e sanitária, o que pode criar desequilíbrios concorrenciais”, mas defende que esses riscos podem e devem ser mitigados pelas cláusulas dos próprios acordos.
Por último, Gonçalo Morais Tristão aponta como desafio estratégico nacional a rápida implementação da estratégia ‘Água que Une’, “um projeto estruturante para o desenvolvimento económico do país, que não podemos atrasar”.
Na opinião de Firmino Cordeiro, o atual Governo enfrenta inúmeras dificuldades na área agrícola, desde logo por ter herdado um ministério “muito fragilizado e desarticulado”, com a perda de competências estruturais, por exemplo na área das florestas (com a saída do ICNF - Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas para o Ministério do Ambiente) e de uma parte da DGAV - Direção Geral de Alimentação e Veterinária. “A reorganização tem sido complexa e ainda não está totalmente concluída”, lamenta.
O final do atual quadro comunitário, na prática, aconteceu em dezembro de 2025, tal a previsão de falta de meios para 2026 e o vazio que se estende a 2027, no arranque do novo ciclo (2028 – 2034), o que “torna estes dois anos particularmente complicados”.
Para o diretor-geral da AJAP, em anteriores governos do PS, “a agricultura perdeu prioridade política, criou divisões internas no ministério e os meios financeiros do PRR ficaram muito aquém das expectativas do setor. Estas situações, infelizmente, tiveram impactos bastante negativos no setor”. O primeiro e o atual Governo de Luís Montenegro, “ao promoverem, na fase inicial, a junção do ministério, assumirem uma postura de maior proximidade em relação ao setor – a par da insistência do Ministro da Agricultura junto de Bruxelas, em vários assuntos, e de algum alívio desencadeado pelo Banco Português de Fomento - abriram uma nova esperança, obviamente com poucos meios, mas com a existência de um diálogo com o setor constante”, o que “é relevante”.
Os fenómenos climáticos adversos registados nos últimos meses, “designadamente os incêndios de 2025 e o ‘comboio de tempestades’ ocorridas entre dezembro de 2025 e janeiro/fevereiro de 2026, tiveram impacto significativo na atividade”. A este contexto acrescem fatores estruturais e políticos “que todos conhecemos: um PEPAC com recursos praticamente esgotados, incertezas quanto à futura PAC e um enquadramento europeu e internacional marcado por elevada instabilidade. Nesta conjuntura, Firmino Cordeiro defende que a maior retenção de água possível a montante em cursos de água pode ter um duplo efeito: “por um lado acaba por mitigar o efeito de cheias e, obviamente, permite disponibilizar mais água para todo o tipo de utilizações, nomeadamente para regadio”. E reafirma que a estratégia ‘Água que Une’ tem efetivamente de ser implementada. “Necessitamos ainda de um modelo de seguros agrícolas mais eficiente, que deve ser ressegurado em parte pela União Europeia, pelo BEI – Banco Europeu de Investimento e pelos Estados-membros. Seguros que, “em nosso entender, sempre que tenham bonificação no prémio deviam ser obrigatórios”, conclui.
Acresce que a previsão da PAC para o próximo quadro (2028– 2034), poderá sofrer cortes até 20%, em relação aos valores do quadro que está em vigor. Para além deste facto ser extremamente preocupante para toda a Europa, na perspetiva de Firmino Cordeiro é necessária maior clareza na separação entre os fundos da PAC para a agricultura e os fundos para a coesão, pois a existência de um fundo único, como está proposto, e a eliminação do II Pilar da PAC (destinado ao investimento e ao desenvolvimento rural), vão penalizar e comprometer ainda mais o setor agrícola em Portugal no futuro.
No setor do milho em Portugal, “2025 foi um ano particularmente exigente para os produtores”, comenta à Agriterra Jorge Neves. Segundo o presidente da ANPROMIS, “registámos uma quebra de produção estimada entre 15% e 20%, resultado da forte incidência do vírus do nanismo, de ataques significativos de javalis e de condições meteorológicas adversas que atrasaram as sementeiras e comprometeram o desenvolvimento das culturas”. A instabilidade meteorológica “voltou a demonstrar a vulnerabilidade da agricultura e da produção de milho face a fenómenos extremos”, lamenta, adiantando que, no final da campanha, “a chuva intensa atrasou colheitas e a tempestade Kristin destruiu o que ainda estava no campo”. Deixando “uma palavra de profunda preocupação e solidariedade para com os agricultores que viram as suas explorações severamente afetadas pelas tempestades de janeiro, que destruíram culturas e infraestruturas”, Jorge Neves sublinha que “é fundamental que haja respostas céleres e eficazes no apoio a estes produtores”.
Em 2026, “o setor dos cereais terá de reforçar a sua competitividade e resiliência”. Para tanto, “é essencial aumentar o rendimento dos agricultores, nomeadamente através de pagamentos ligados à produção, conforme previsto na Estratégia + Cereais, criando condições para que produzir cereais em Portugal seja economicamente viável”, defende. Paralelamente, “é decisivo avançar com o projeto ‘Água que Une’, assegurando maior disponibilidade e eficiência no uso da água, um recurso estratégico para a soberania alimentar”. Já no âmbito da nova PAC, “importa salvaguardar os agricultores portugueses, garantindo instrumentos que promovam estabilidade, investimento e sustentabilidade, permitindo ao setor responder aos desafios do mercado e das alterações climáticas”, remata Jorge Neves.
Em relação à campanha de 2025 e início de 2026 do setor oleícola, “a sensação foi agridoce, ou seja, as expectativas eram muito boas e calculava-se que se podia chegar às 200 mil toneladas de azeite produzido, mas houve uma quebra de cerca de 20%, e a expectativa agora é que a produção final se situe “entre as 160 e 170 mil toneladas”, começa por partilhar Manuel Norte Santo.
Segundo o presidente do CEPAAL, este recuo foi provocado por “eventos extremos”, destacando-se “um período de calor intenso e a ausência de precipitação“entre os meses de maio e outubro, “o que teve consequências no crescimento e no desenvolvimento do fruto”. Já as chuvas tardias de outubro dificultaram a apanha. As intempéries que vivemos em janeiro “acabaram por ser a ‘gota de água’, pois ainda existia uma quantidade considerável de azeite a ser produzido e foi impossível os produtores irem para o campo fazer a colheita”.
Apesar da redução quantitativa, “ao longo de toda a campanha tivemos um fruto muito são e com excelentes condições sanitárias (sem mosca, gafa ou episódios de geadas), ou seja, conseguimos produzir azeite de muita qualidade, com uma grande percentagem de azeite virgem extra", esclarece o responsável.
De acordo com Manuel Norte Santo, “a grande questão é agora a nível do preço do azeite”. Esperava-se que a produção espanhola pudesse aliviar os preços, mas a quebra de produção também se verificou no país vizinho, mantendo o mercado “muito sustentado”. O CEPAAL considera que os valores atuais são benéficos para toda a fileira: “o consumidor acaba por conseguir aceder ao produto, porque não está excessivamente caro, o produtor consegue tirar alguma margem de lucro e o embalador também consegue escoar o seu produto”.
O novo acordo comercial com o Mercosul é visto com cautela. Embora traga segurança para as exportações para o Brasil — o maior mercado de azeite embalado português — o acordo também abre portas a uma concorrência “muito agressiva“por parte de Itália e Espanha. Perante este cenário, o presidente do CEPAAL defende uma estratégia conjunta sob a ‘marca Portugal’ e a criação urgente de uma organização interprofissional transversal a toda a fileira.”Este acordo do Mercosul vai fazer com que este assunto seja ainda mais urgente”, acredita.
Quanto à revisão da PAC, a preocupação recai sobre a redução orçamental e as exigências burocráticas. “A PAC é uma ferramenta que nos ajuda a ter, a nível europeu, soberania alimentar”. Reduzir este investimento no contexto geopolítico atual “vai ser prejudicial”, porque “uma PAC robusta, focada no investimento, na produção e na sustentabilidade é também uma arma de defesa. Muito do nosso orçamento europeu está a ser direcionado para a defesa, mas acho que a soberania alimentar pode funcionar como tal, conclui Manuel Norte Santo.
Na opinião de Joel Vasconcelos, o balanço do ano agrícola de 2025 “voltou a confirmar a resiliência do setor, mas também a sua crescente vulnerabilidade”. Como reitera o CEO da Lusomorango, “entre fenómenos climáticos extremos, pressão sobre os custos de produção e exigências cada vez maiores dos mercados nacionais e internacionais, os agricultores portugueses demonstraram capacidade de adaptação e profissionalismo”.
Ainda assim, ficou claro que a estabilidade produtiva depende cada vez mais de planeamento, investimento e políticas públicas alinhadas com a realidade no terreno, defende.
Quanto a tendências para 2026, os principais desafios da agricultura portuguesa “centram-se na adaptação às alterações climáticas, nomeadamente a concretização da estratégia nacional ‘Água que Une’, na previsibilidade da PAC e no seu reforço, e na necessidade de políticas robustas” que, entre outros fatores, permitam a simplificação da relação dos agricultores com os vários organismos públicos.
Segundo Joel Vasconcelos, “será determinante garantir regras equilibradas, que assegurem competitividade aos produtores europeus, sem comprometer padrões ambientais, sociais e de segurança alimentar”. Como sublinha, “o futuro do setor passa por mais inovação, melhor gestão dos recursos, simplificação de processos e uma visão estratégica que valorize quem produz”.
O balanço económico do ano agrícola de 2025 “evidencia um período de ajustamento exigente para o setor em Portugal”, analisa Gonçalo Caleia Rodrigues. De acordo com as estimativas estatísticas, o rendimento real da atividade agrícola registou uma contração de 10,7%. Esta quebra “explica-se, em grande medida, pela normalização dos fluxos financeiros após as crises recentes, que regressaram aos patamares habituais”, contextualiza.
De acordo com o professor no Instituto Superior de Agronomia, “além do impacto do fim das ajudas extraordinárias, o setor deparou-se com um desequilíbrio na distribuição de valor na cadeia de abastecimento”. Os dados indicam que, enquanto o índice de preços de produtos alimentares ao consumidor subiu 6%, o índice dos preços pagos aos produtores agrícolas sofreu uma descida de 11 pontos percentuais, esclarece o docente. Este diferencial “sublinha a necessidade de continuar a trabalhar em mecanismos de regulação e transparência que garantam margens operacionais sustentáveis e justas para quem atua na base da produção agroalimentar”.
No ano de 2026, a agricultura portuguesa “enfrenta transições estruturais, marcadas pela redefinição do comércio global, novas políticas europeias e pela adaptação obrigatória aos fenómenos climáticos extremos”. A formalização do acordo Mercosul “introduz um novo paradigma competitivo”, acredita: “embora represente uma oportunidade de expansão para fileiras de valor acrescentado, importa a criação de salvaguardas que protejam a pequena e média agricultura. A exigência central recai sobre a fiscalização rigorosa das ‘cláusulas-espelho’, garantindo que as importações cumprem as mesmas exigências ambientais, sociais e fitossanitárias a que os agricultores europeus estão obrigados”, explana.
Em paralelo, as negociações sobre o futuro da PAC pós-2027 “exigem atenção redobrada, sendo fundamental encontrar um equilíbrio entre a ambição da defesa e a urgência de um claro investimento no sector agroalimentar”. Este “será, em meu entender, o maior desafio do ano”, afirma Gonçalo Caleia Rodrigues.
Contudo, a grande condicionante física e estratégica para 2026 “será a adaptação às alterações climáticas”, alerta. “Após anos de seca, a vulnerabilidade do setor ficou novamente exposta no início do ano com a passagem de depressões severas, como a tempestade ‘Kristin’. A longo prazo, o setor terá de assumir o ordenamento do território, a gestão eficiente da água e a adoção de medidas de adaptação e mitigação às alterações climáticas como os alicerces incontornáveis da sua sustentabilidade”, conclui o professor do ISA.
2025 “foi um ano complicado, com uma primavera particularmente chuvosa, até meados de maio, e um outono/inverno igualmente muito chuvosos, a partir de meados de outubro”, resume Francisco Gomes da Silva. Nesta conjuntura, a generalidade das culturas anuais de primavera/verão sofreram “quebras muito significativas na produtividade, com os mercados a não ajudarem, pois mantiveram tendências de queda que já vinham de anos anteriores” (caso do milho, do arroz, do tomate para indústria e de muitos outros). Para as culturas permanentes, “as coisas não correram muito melhor. A uma incidência grande de problemas fitossanitários (nomeadamente na generalidade das prunoideas e pomoideas) veio juntar-se uma quebra de vingamento, devido às chuvas intensas na ápoca de floração” (caso muito evidente nas amendoeiras), elucida o sócio gerente da Agroges, acrescentando que, no olival, os preços caíram face aos anos anteriores, mas mantiveram um nível ainda aceitável, tal como a produtividade.
Para 2026, e após “um início desastroso tendo em conta a destruição provocada pelo temporal e pelas inundações, está ainda tudo muito em aberto. Se as condições meteorológicas ‘normalizarem’, poderá ser um ano com produtividades interessantes para as culturas de primavera/verão e para as fruteiras, olival e vinha”, prevê. Para os cereais de outono/inverno “será um ano para esquecer, pois muitas áreas nem chegaram a ser semeadas e outras ficaram totalmente alagadas com o excesso de precipitação”, afirma, categórico.
Em termos de enquadramento político, “nada se altera: a PAC está em velocidade cruzeiro (assim a AG-PEPAC e o IFAP deem resposta adequada) e o acordo com o Mercosul, tendo sido enviado para o Tribunal europeu, ainda demorará mais de um ano a ser aplicado”, conclui. Finalmente, para muitos agricultores que viram as suas infraestruturas destruídas pelo mau tempo, “o futuro vai depender muito dos mecanismos que o Estado venha a disponibilizar para a sua recuperação”, alerta Francisco Gomes da Silva.
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Agriterra - Informação profissional para a agricultura portuguesa