Entrevista a Michael Bailey, responsável global pela área de Culturas de Alto Valor da John Deere
“A combinação de autonomia e automatização vai marcar o futuro das culturas de alto valor”
Ángel Pérez
Periodista especializado en Agricultura y Ganadería · Interempresas Media
27/04/2026
Dispomos de soluções autónomas a operar em culturas de alto valor, como os sistemas adquiridos à Guss
Tecnologias como o Smart Apply não só permitem operar sem condutor, como também aplicar fatores de produção de forma precisa
Michael Bailey, responsável global pela área de Culturas de Alto Valor da John Deere, analisa de que forma a digitalização, a automatização e a inteligência artificial estão a redefinir a agricultura especializada. Destaca o papel central da simplicidade tecnológica, da sustentabilidade economicamente viável e da tomada de decisões baseada em dados como fatores determinantes para a competitividade.
Michael Bailey, durante o Field Day Espanha.
A John Deere tem sido tradicionalmente forte na agricultura em grande escala. Como está a ser redefinida a sua estratégia para liderar nas culturas de alto valor?
Uma das questões-chave é que, quando se pensa na John Deere, esta é habitualmente associada às culturas extensivas. No entanto, identificámos que muitas das soluções de agricultura de precisão que tiveram sucesso nesses segmentos são igualmente relevantes para outras áreas, como as culturas de alto valor ou mesmo a produção animal.
Por isso, reorganizámos o nosso negócio em torno dos sistemas de produção dos nossos clientes. No caso das culturas de alto valor – como olivais, pomares, vinhas, citrinos ou café –, focámo-nos em compreender os seus principais desafios: o custo da mão de obra, a rentabilidade e a gestão eficiente da informação para apoio à decisão.
O que verificámos é que estes desafios são muito semelhantes aos da agricultura extensiva. Isso permitiu-nos escalar a nossa tecnologia e adaptá-la a diferentes sistemas de produção, alargando o nosso ecossistema tecnológico a estas culturas.
Como acha que vai evoluir o equilíbrio entre mecanização e agricultura de precisão nas culturas de alto valor?
Existe uma relação muito clara entre ambas. A agricultura de precisão permite analisar dados e tomar melhores decisões, mas continua a ser imprescindível atuar no terreno, e é aí que entra a mecanização.
O que está a mudar é que a mecanização se está a tornar cada vez mais inteligente, graças a tecnologias como a visão computacional e a inteligência artificial. Ainda assim, vai continuar a ser necessária e, em alguns casos, haverá sempre tarefas em que a intervenção humana é fundamental.
Falamos de ‘Smart Industrial’: a atividade industrial da empresa continua a ser essencial, mas o valor acrescentado provém da tecnologia inteligente incorporada nas máquinas.
Como é que as pressões de sustentabilidade (recursos hídricos, fatores de produção, etc.) influenciam as vossas prioridades de inovação?
Depende muito da região. Em locais como a Califórnia, as restrições hídricas obrigam ao desenvolvimento de soluções específicas. No entanto, para além da regulamentação, existe um compromisso intrínseco do agricultor com a sustentabilidade: melhorar a qualidade do solo para as gerações futuras. O desafio é alcançar uma ‘sustentabilidade economicamente viável’: manter o equilíbrio entre a proteção ambiental e a viabilidade económica da exploração.
Quais são as principais barreiras técnicas que ainda limitam a adoção da robótica?
O principal desafio não é tecnológico, mas sim de usabilidade. Os agricultores não procuram tecnologia por si só, mas soluções para os seus problemas. A chave está em simplificar as ferramentas, de modo a que não exijam conhecimentos técnicos avançados.
Um bom exemplo é a fotografia: antes exigia experiência, mas hoje qualquer pessoa consegue obter bons resultados com um smartphone. Na agricultura deverá acontecer o mesmo. Se a tecnologia for simples e útil, a sua adoção será muito mais rápida.
Como é que a John Deere está a integrar a inteligência artificial e a visão computacional na sua oferta?
Um dos nossos principais diferenciadores é o John Deere Operations Center, uma plataforma que permite gerir a exploração agrícola. Entendemos que o futuro passa por um ecossistema aberto, onde diferentes empresas – incluindo startups – possam integrar-se através de APIs.
Combinamos desenvolvimento interno com colaboração externa para oferecer soluções baseadas em inteligência artificial, análise de dados e sensorização das culturas. Este equilíbrio entre inovação interna e colaboração externa é fundamental para avançar.
Estamos perto de ver operações totalmente autónomas em culturas de alto valor?
Mais do que perto, já estamos lá. Atualmente, dispomos de soluções autónomas a operar em culturas de alto valor, como os sistemas adquiridos à Guss, que já trabalharam em milhões de hectares.
Além disso, estamos a avançar no desenvolvimento de tratores autónomos capazes de realizar múltiplas tarefas. No entanto, é importante distinguir entre autonomia e automatização. A autonomia ajuda a resolver problemas como a escassez de mão de obra, mas é a automatização que realmente gera valor.
Por exemplo, tecnologias como o Smart Apply não só permitem operar sem condutor, como também aplicar fatores de produção de forma precisa, em função da densidade da vegetação. A combinação de ambas – autonomia e automatização – é a chave para o futuro.
A Guss é uma solução robotizada da John Deere.
Olhando para os próximos cinco a dez anos, o que vai definir a competitividade nas culturas de alto valor?
Ao contrário das culturas extensivas, neste caso não importa apenas o rendimento, mas também a qualidade: sabor, valor nutricional ou características específicas do produto.
A agricultura continuará a ser imprevisível, mas os agricultores vão ter à disposição melhores ferramentas para detetar, analisar e agir perante os problemas. A competitividade será determinada pela capacidade de utilizar dados, inteligência artificial e mecanização avançada para tomar decisões mais rápidas e precisas.
Se tivesse de apontar uma tecnologia transformadora para a próxima década, qual seria?
Mais do que uma tecnologia concreta, diria que será a automatização avançada apoiada na autonomia. O desafio não é apenas desenvolver tecnologia, mas garantir a sua utilização. Muitas soluções já existem, mas nem sempre são adotadas.
A verdadeira mudança vai ocorrer quando a tecnologia for tão intuitiva que a sua utilização se torne natural, tal como aconteceu com a fotografia nos smartphones.
O canal de distribuição está preparado para esta transformação?
O concessionário é a face da John Deere junto do cliente, e o seu papel é fundamental. Como em qualquer organização, a evolução não é uniforme, mas, de um modo geral, estão a incorporar novas competências: integração tecnológica, análise de dados e aconselhamento especializado.
O canal está a evoluir em paralelo com a empresa e será determinante para levar estas soluções ao agricultor.
A entrevista foi realizada no Centro de Inovação da John Deere, em Parla (Madrid).
Estamos a realizar esta entrevista no âmbito do GOFAR Tour, realizado a 15 de abril no Centro de Inovação da John Deere, em Parla (Madrid). Por que razão estas instalações são estratégicas para a empresa?
Espanha é um mercado-chave para as culturas de alto valor. A adoção de maquinaria levou-nos a compreender melhor as necessidades reais dos agricultores e a desenvolver soluções adaptadas.
Além disso, a diversidade agrícola e o enquadramento regulatório europeu tornam o país um local privilegiado para antecipar tendências. Também tirámos partido das infraestruturas existentes para desenvolver capacidades de I&D.
Como é que a colaboração com agricultores, startups e centros de investigação influencia a vossa estratégia global?
A inovação não é apenas interna. Muitas das nossas soluções resultam de colaborações ou aquisições, como a Guss ou a Smart Apply. Trabalhamos com empresas especializadas em sensorização, drones ou análise de dados para integrar as suas soluções no nosso ecossistema.
O objetivo é avançar em três áreas-chave: sensorização, análise e ação. Paralelamente, estamos a explorar novas tecnologias, como o controlo mecânico ou a laser de ervas daninhas e sistemas avançados de apoio à decisão.