Chaparro Agrícola e Industrial, S.L.
Informação profissional para a agricultura portuguesa
14º Encontro Nacional de Produtores de Mirtilo

“O tema da qualidade reflete uma prioridade clara: produzir melhor, com mais valor”

Gabriela Costa30/04/2026

Os produtores de mirtilo reuniram-se a 12 de março, no Convento de São Francisco, em Santarém, para debater os ‘Caminhos para a Qualidade’ numa fileira que atingiu maturidade e revela potencial de crescimento. No Encontro da ANPM, que contou com a participação do ministro da Agricultura, mais de 300 especialistas nacionais e internacionais projetaram o futuro de um setor que já ocupa quase 3.000 hectares em Portugal. A Agriterra fez a reportagem in loco da conferência e conversou com o presidente da Associação, Carlos Adão.

O Encontro Nacional de Produtores de Mirtilo reuniu mais de três centenas de participantes no Convento de São Francisco, em Santarém...
O Encontro Nacional de Produtores de Mirtilo reuniu mais de três centenas de participantes no Convento de São Francisco, em Santarém.

Na sua 14ª edição, o Encontro Nacional de Produtores de Mirtilo da ANPM - Associação Nacional de Produtores de Mirtilo debateu a agricultura moderna que define hoje esta cultura e os desafios e oportunidades que se colocam no futuro. Centenas de produtores, técnicos, investigadores e comercializadores reuniram-se no Convento de São Francisco, em Santarém, num evento que contou com vários painéis de debate e a participação de algumas dezenas de empresas expositoras.

Na área de exposições, dezenas de empresas apresentaram as suas soluções para o setor do mirtilo
Na área de exposições, dezenas de empresas apresentaram as suas soluções para o setor do mirtilo.

Em pouco mais de uma década, a fileira desenvolveu-se de forma significativa em Portugal: de apenas 43 hectares de produção, Portugal passou para quase 3.000 hectares dedicados ao mirtilo, um crescimento que revela o peso crescente desta cultura no panorama agrícola nacional.

Analisando o futuro do setor à luz da inovação e da sustentabilidade, o Encontro da ANPM avaliou a atual eficiência produtiva do mirtilo, em busca da elevada qualidade do fruto. A conferência do primeiro dia do encontro foi dedicada à análise do mercado, da inovação pré e pós colheita, da investigação e genética, da Inteligência Artificial (IA) aplicada à produção e da competitividade do mirtilo nacional.

Na sessão de abertura, a cargo do presidente da ANPM e de Álvaro Mendonça e Moura, presidente da CAP - Confederação dos Agricultores de Portugal, ficou patente que os muitos desafios que se colocam a esta cultura – da implementação do programa ‘Água que Une, à burocracia associada ao recente ‘comboio de tempestades’, passando pela integração e simplificação contratual da mão de obra imigrante – obrigam a um maior conhecimento da fileira, que deve ser congregado numa “estratégia nacional” através da criação de um “observatório com metodologias”, com “o apoio da tutela”, como defendeu Carlos Adão.

Já o presidente da CAP sublinhou o potencial de crescimento de toda a fileira dos pequenos frutos – motivo para a escolha do tema na próxima Feira Nacional de Agricultura, em junho –, a qual registou, em 2025, 398 milhões de euros em exportação; e, em particular, os resultados da exportação de mirtilos, que ascendeu aos 59 milhões de euros, com um preço médio de 6,3 euros por quilo de produto exportado.

Qualidade define o consumidor do mirtilo

O primeiro painel, dedicado às tendências de produção e consumo no mercado, reuniu Gustavo Yentzen, da IBO - International Blueberry Organization, Francisco Gambôa Vicente, da Sonae e Eduardo Bremm, da Driscoll's, num debate que retratou o consumo de mirtilo e as tendências dos mercados europeu, ibérico e português, sob a moderação de Gonçalo dos Santos Andrade, da Portugal Fresh. O consumidor deste fruto define-se pela exigência de qualidade, apresentando um perfil que privilegia a alimentação saudável e as compras biológicas, incluindo snackings.

Seguiu-se uma sessão sobre gestão de explorações nas operações de pré e pós-colheita, onde foram apresentadas ferramentas e estratégias para tornar as produções mais eficientes, sustentáveis e competitivas, bem como as mudanças no quadro de apoio e investimento agrícola na Europa. O objetivo é alcançar consistência face às exigências da aparência e sabor da fruta. Moderado por Luís Mira, da CAP, o painel reuniu as participações de Paula del Valle, da MyBlueProject, Hugo Botelho, da Bfruit, Diogo Oliveira, da O'baga e Pedro Santos, da Consulai.

Já no terceiro painel, que, numa análise ao estado-da-arte da investigação científica na fileira, contou com as presenças de Luca Mazzoni, da Università Politecnica delle Marche, Erik Veenman, da Vivent Biosignals e Diogo Machado, da Green Factor, com a moderação de Carmo Martins, do COTHN, os temas abordados foram as estratégias para melhorar a qualidade do fruto, a identificação precoce de stress por impulso elétrico e as experiências práticas com bioestimulação. A influência da genética na qualidade do fruto foi amplamente debatida.

O último painel analisou a inovação e as tecnologias aplicadas à fileira do mirtilo, como a aplicação de IA na produção e na identificação de pragas e doenças e a colheita mecânica de mirtilos. Moderado por Domingos dos Santos, da FNOP, reuniu o conhecimento científico de André Barriguinha, da Universidade NOVA Information Management School, e de Pedro Henrique Fernandes Moura, do INESC TEC, com a experiência em tecnologia agrícola especializada na colheita de mirtilos da FineField, pela voz de Marcel Beelen.

O primeiro dia encerrou com a 'Mesa de Produtores', um debate aberto onde se discutiram o marketing da fruta portuguesa, as competências técnicas nas explorações e o futuro do setor, num contexto onde a falta de mão-de-obra, o peso da burocracia, a necessidade de aumentar o consumo interno e o reforço da exportação constituem os principais desafios. O habitual espaço de discussão nos encontros da ANPM foi desta vez moderado por Pedro Brás de Oliveira, do INIAV, reunindo os produtores Fernando Azevedo (Minhoberrycoop), Maria João Raro (Maio Verde), Nuno Melo (Valle de Santa Cristina), Nuno Silveira (Visionagro) e Pedro Aguiar (Campo Blue).

A análise de todas estas temáticas na conferência dedicada à qualidade e potencial de crescimento da produção de mirtilo em Portugal evidencia que esta é uma cultura perene de elevado valor acrescentado, que exige investimento significativo por hectare (plantação, substratos, rega gota-a-gota, proteção, mão de obra intensiva), e cuja produção é orientada para mercados especializados e para exportação, com forte componente tecnológica.

Num dia de campo na exploração de mirtilo Campo Blue, o Ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes...
Num dia de campo na exploração de mirtilo Campo Blue, o Ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, destacou o dinamismo e a competitividade do setor.

Fileira afirma a sua competitividade

No segundo dia do evento, 13 de março, o evento contou com a participação do ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, num dia dedicado a uma visita de campo na exploração agrícola Campo Blue, em Almeirim. José Manuel Fernandes sublinhou a relevância daquele que é “o principal fórum nacional desta fileira”, considerando que a forte adesão ao evento e a presença internacional “demonstram bem a relevância e o dinamismo desta fileira, que se tem afirmado como uma das mais competitivas da agricultura portuguesa”.

Defendendo que o tema do encontro, ‘Caminhos para a Qualidade’, “reflete uma prioridade clara: produzir melhor, com mais valor, adaptando a produção às exigências dos consumidores e aos mercados cada vez mais competitivos”, o ministro alertou que “num setor onde a tecnologia, a mecanização e até a inteligência artificial estão cada vez mais presentes, contribuindo para maior eficiência e melhor utilização dos recursos, temos, no entanto, desafios exigentes: a gestão da água, a disponibilidade de mão de obra, as questões fitossanitárias e a necessidade de simplificação de processos”. No final, ficou a promessa: “estamos empenhados em trabalhar com o setor para encontrar soluções, com políticas públicas que acompanhem o seu crescimento e reforcem a sua resiliência”.

Também presentes na abertura oficial deste dia de campo estiveram Carlos Adão e o presidente da Câmara de Almeirim, Joaquim Catalão. O programa incluiu apresentações sobre agricultura regenerativa e equipamentos de seleção e classificação de Mirtilo com recurso a IA, bem como demonstrações de equipamentos de colheita mecânica, de seleção e embalamento e de veículos autónomos de apoio à agricultura.

Organizado pela Associação Nacional de Produtores de Mirtilo (ANPM), em parceria com o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV) e com o Centro Operativo e Tecnológico Hortofrutícola Nacional (COTHN), o evento contou com o apoio da Câmara Municipal de Santarém. A Agriterra foi, como habitualmente, Media Partner do 14º Encontro Nacional de Produtores de Mirtilo.

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Carlos Adão, presidente da Associação Nacional de Produtores de Mirtilo

“A fileira do mirtilo atua num mercado de grande competitividade”

Em entrevista à Agriterra à margem do recente Encontro Nacional dos Produtores de Mirtilo, o presidente da ANPM, Carlos Adão, explica a escolha da temática ’Caminhos para a Qualidade’ para uma edição com lotação esgotada que reuniu mais de 300 participantes e a presença de especialistas de Portugal, Espanha, França, Países Baixos, Itália e Chile.

 

Qual é a relevância da organização deste 14º Encontro Nacional dos Produtores de Mirtilo no atual contexto do setor?

Como disse, e bem, esta foi já a 14ª edição deste Encontro Nacional dos Produtores de Mirtilo e representou, no fundo, mais uma oportunidade para trocarmos experiências entre os produtores do setor. No primeiro dia do evento, através de um momento de aprendizagem com uma conferência que aportou muito conhecimento. E no segundo dia de campo, numa lógica mais informal, com a apresentação e demonstração de algumas tecnologias.

Que balanço faz desta edição ao nível da participação e iniciativas incluídas no programa?

Nesta edição realizada em Santarém registámos um recorde absoluto ao longo das 14 edições, quer em termos de participantes, quer em termos de atividades realizadas. Tivemos 340 pessoas inscritas e, entretanto, vieram assistir ao Encontro algumas outras não inscritas, que obviamente acolhemos com todo o gosto.

Como avalia o valor do debate no primeiro dia do Encontro da ANPM, ao nível das temáticas em destaque?

Este 14º Encontro realizou-se em torno de um tema principal e abrangente: a qualidade. A razão para a escolha desta temática prende-se com o facto de a fileira do mirtilo atuar num mercado de grande competitividade, onde precisamos de estar constantemente em atualização. A ideia foi estimular os produtores a repensarem as suas explorações, para se adaptarem e adequarem àquilo que são as tendências e as experiências de consumo, e também àquilo que são os interesses dos produtores e dos comercializadores a nível internacional.

A conferência organizou-se em quatro sessões, a primeira das quais teve que ver exatamente com os mercados e com as tendências de consumo. A segunda sessão, com uma orientação mais técnica, abordou práticas de pré-colheita e de pós-colheita e a sua influência na qualidade, mas também a organização e concentração da produção, a gestão das explorações agrícolas e os incentivos financeiros e de investimento que estão disponíveis para o setor.

Tivemos depois uma terceira sessão dedicada à componente da investigação no mirtilo, que analisou aquilo que se faz a este nível em Portugal e como é feita essa transferência de conhecimento da academia e dos centros de investigação para a produção.

Finalmente, na quarta sessão, o foco esteve no uso de tecnologia em contexto agrícola, ou seja, na inteligência artificial aplicada a várias áreas da agricultura, como o controlo de pragas e doenças, armadilhas inteligentes, a colheita mecânica, a robótica e, genericamente, a mecanização das práticas agrícolas na fileira do mirtilo.

No que respeita à investigação, a questão da genética esteve em destaque no debate. Que impacto poderá ter a criação de novas variedades numa produção de mirtilo mais constante ao longo de todo o ano?

A genética tem uma influência fundamental na nossa produtividade e na forma de condução das explorações. E, efetivamente, tem existido um conjunto de variedades novas, todos os anos, e essas variedades estão comercialmente no mercado. É importante os produtores irem acompanhando esta evolução e fazendo algumas alterações, retirando algumas variedades mais antigas e renovando as suas explorações. Lá está, para que a fruta que produzam tenha os padrões de qualidade que o consumidor final espera.

E neste aspeto, a exigência de um consumidor de mirtilo há dez anos atrás é totalmente diferente da atual. Portanto, esta componente científica da nova genética, com as variedades que vão aparecendo, contribui para a qualidade do fruto. Mas também obriga o produtor a fazer novos investimentos e a atualizar as suas explorações.

O que destaca no dia de campo na exploração de mirtilo ribatejana Campo Blue, que contou com a presença do Ministro da Agricultura e Mar?

Como é típico nestes nossos encontros, o segundo dia é sempre dedicado a uma sessão de campo, onde fazemos apresentações de tecnologias em visitas de campo. Contámos, logo na abertura deste dia, com a presença do Ministro José Manuel Fernandes, que sublinhou a relevância da fileira do mirtilo, o dinamismo dos produtores e o peso dos pequenos frutos nas exportações nacionais, abordando ainda as iniciativas do governo para o setor, nomeadamente sobre a estratégia ‘Água que Une’, mas também sobre as medidas de apoio aos agricultores afetados pelos fenómenos climáticos extremos e sobre a necessidade de simplificação de processos.

A manhã de trabalho incluiu uma sessão sobre agricultura regenerativa e uma demonstração de equipamentos de colheita mecânica, de equipamentos agrícolas e tecnologias como sensores e soluções de monitorização, e ainda de equipamentos de seleção e embalamento.

A iniciativa culminou num almoço de despedida, ficando marcada por um momento prático mais descontraído.

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