Num momento em que a vitivinicultura portuguesa enfrenta desafios cada vez mais complexos – da escassez de água à pressão das alterações climáticas, sem esquecer a necessidade de produzir de forma mais eficiente e sustentável – a Península de Setúbal acolheu, a 19 de maio, um encontro dedicado à competitividade e resiliência como fatores estratégicos para o futuro da vinha.
Organizada pela Revista Agriterra, a Conferência Técnica da Vinha 2026 reuniu quase uma centena de profissionais do setor, entre produtores, técnicos, investigadores, empresas e representantes de entidades públicas, para uma manhã de debate em torno das transformações que estão a marcar a atividade vitivinícola.
Sob o mote ‘Tecnologia, clima e sustentabilidade na vitivinicultura do futuro’, o evento decorreu no Auditório Nobre da Escola Superior de Ciências Empresariais (ESCE) do Instituto Politécnico de Setúbal e destacou-se pela diversidade de perspetivas reunidas em palco. Da investigação científica à experiência de campo, passando pelas novas soluções tecnológicas e pelas exigências regulatórias, a conferência promoveu uma reflexão alargada sobre os caminhos que poderão reforçar a competitividade e a resiliência das explorações vitícolas nos próximos anos.
A iniciativa contou ainda com a parceria estratégica de algumas das principais entidades ligadas à investigação, ao conhecimento e ao desenvolvimento do setor, entre as quais o Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), a Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal (CVRPS), o Instituto Superior de Agronomia (ISA), o Centro Operativo e de Tecnologia de Regadio (COTR) e o Linking Landscape, Environment, Agriculture and Food (LEAF). O Crédito Agrícola e a CarmoFarm apoiaram o encontro como patrocinadores premium, juntando-se à Biostasia e à Consulai (patrocinadores) e à colaboração da Fertiberia Tech – ADP Fertilizantes.
Uma plateia de produtores, técnicos, investigadores, empresas e representantes de entidades do setor assistiu ao debate sobre os desafios e oportunidades da vitivinicultura.
A sessão de abertura ficou marcada por uma mensagem transversal aos diferentes intervenientes: a vitivinicultura atravessa um período de mudança profunda, mas também de oportunidades para quem conseguir adaptar-se aos novos desafios.
Coube a Gabriela Costa, diretora da Revista Agriterra, sublinhar a relevância do momento para um setor confrontado com as alterações climáticas, o aumento dos custos de produção, a escassez de recursos e a crescente pressão dos mercados. “Produzir uvas e vinho de qualidade, assegurando sustentabilidade ambiental e eficiência produtiva, é hoje um desafio central”, afirmou.
Em representação do ministro da Agricultura e Mar, o presidente do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), Francisco Toscano Rico, traçou um retrato exigente da conjuntura que o setor enfrenta a nível internacional. Referindo-se aos debates recentes da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), descreveu o atual contexto como uma possível “tempestade perfeita”, marcada pela descida do consumo e das exportações em vários mercados. Ainda assim, defendeu uma visão otimista, considerando que existem condições para transformar as dificuldades em oportunidades.
Uma das questões que destacou foi a alteração dos hábitos de consumo, sobretudo entre as gerações mais jovens. Recordando uma recente deslocação a França, observou que era o único cliente de uma esplanada a consumir vinho, um episódio que utilizou para ilustrar a necessidade de o setor repensar a forma como comunica com os consumidores. “Temos de refletir sobre a forma como estamos a comunicar o vinho.”.
Ao longo da sua intervenção, Francisco Toscano Rico insistiu na ideia de que a competitividade da fileira começa na vinha. “Não há competitividade da fileira sem competitividade da vinha”, declarou, defendendo uma maior aposta na digitalização, na agricultura de precisão, na capacitação dos produtores e na disponibilização de informação de mercado mais detalhada. O responsável anunciou ainda a intenção de reforçar a recolha e divulgação de dados económicos e produtivos, de forma a apoiar tanto as políticas públicas como as decisões empresariais.
Henrique Soares, presidente da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal (CVRPS), assinalou igualmente a importância crescente da sustentabilidade para o futuro da atividade. Recordando o percurso da região na adoção de práticas de proteção e produção integrada, salientou que temas como a gestão da água e a adaptação às condições climáticas assumem hoje um caráter decisivo para a viticultura. Na sua perspetiva, a realização da conferência na Península de Setúbal surge num momento particularmente oportuno para discutir respostas concretas aos desafios que se colocam ao setor.
Partindo da ideia, anteriormente referida por Francisco Toscano Rico, de que o setor atravessa uma espécie de “tempestade perfeita”, o investigador explicou que a vinha está hoje sujeita a várias pressões em simultâneo: um clima mais quente e seco, custos de produção crescentes e mercados em transformação. Perante este cenário, defendeu uma mudança de paradigma na gestão das explorações. “A forma como decidimos é cada vez mais importante, tão importante quanto aquilo que decidimos”, salientou.
Na componente económica, evidenciou o aumento dos custos da energia, dos fertilizantes e dos fitofármacos, bem como a crescente dificuldade em assegurar mão de obra. A resposta, considerou, passa por uma maior eficiência operacional, apoiada pela mecanização, automação, robótica e ferramentas de apoio à decisão.
A análise climática ocupou o centro da apresentação. Com base em dados da Península de Setúbal, José Silvestre mostrou que a temperatura média durante o ciclo vegetativo aumentou cerca de 1,5°C nas últimas décadas, enquanto aumentou o número de dias acima dos 35°C e se agravaram os indicadores de secura. Segundo o investigador, a região passou, desde o início deste século, de um clima seco para muito seco. Paralelamente, a precipitação durante o ciclo vegetativo tem diminuído, enquanto a evapotranspiração continua a aumentar, elevando as necessidades de rega e a pressão sobre os recursos hídricos.
As consequências refletem-se em maturações mais precoces, redução da acidez, aumento do potencial alcoólico e maior dificuldade em definir o momento ideal da vindima. A frequência crescente de ondas de calor e outros eventos extremos constitui outro fator de preocupação para a qualidade da uva e a estabilidade da produção.
Perante esta realidade, José Silvestre advogou uma adaptação assente em práticas agronómicas ajustadas às novas condições climáticas, na valorização da diversidade genética e na adoção de tecnologias de precisão. Realçou, por outro lado, o desenvolvimento de sensores, monitorização por satélite e drone, sistemas de apoio à decisão e aplicações de machine learning para apoiar a gestão da rega, a monitorização nutricional e a previsão de pragas e doenças.
Entre os exemplos apresentados, referiu modelos preditivos para estimar o estado hídrico da vinha e a criação, pelo INIAV, de uma rede nacional de armadilhas inteligentes para monitorização de pragas. Só na vinha deverão ser instaladas este ano cerca de 800 armadilhas inteligentes em várias regiões do país.
Apesar do potencial destas ferramentas, alertou para limitações como os custos de implementação, a falta de interoperabilidade entre plataformas e a necessidade de validação em condições reais de campo. Não obstante, deixou uma mensagem clara: o futuro da viticultura dependerá cada vez mais da capacidade de transformar dados em decisões. “A tecnologia só é útil quando cria valor e melhora a nossa capacidade de decisão”, rematou.
Apesar das diferentes perspetivas representadas no painel, houve uma ideia que atravessou toda a discussão: a sustentabilidade deixou de ser apenas uma preocupação ambiental para se afirmar como uma condição essencial para a viabilidade económica das explorações vitícolas.
Para Joaquim Miguel Costa, a crescente digitalização da agricultura só vai produzir resultados se for acompanhada por um conhecimento sólido da planta e do solo. O investigador notou que a recolha de dados, por si só, não resolve os problemas. “É preciso perceber a planta e perceber o solo”, disse, defendendo que a sensorização e a monitorização só têm valor quando os dados são corretamente interpretados. O especialista destacou, por isso, a importância da inventariação de consumos e recursos, considerando que sem métricas fiáveis não é possível melhorar a eficiência nem tomar decisões fundamentadas. “Se não houver essas métricas, não se pode gerir”, resumiu.
A gestão da água dominou igualmente parte significativa do debate. Gonçalo Morais Tristão sustentou que o principal desafio nacional não está na falta de recursos hídricos, mas na sua gestão. “Portugal não tem falta de recursos hídricos”, assegurou peremtoriamente, sublinhando que o país retém apenas uma pequena parte da água que aflui às suas bacias hidrográficas. Para o responsável da FENAREG, aumentar a capacidade de armazenamento, modernizar infraestruturas e investir em eficiência são passos fundamentais para garantir a sustentabilidade futura da agricultura. Frisou ainda a importância da estratégia ‘Água que Une’ e da utilização de dados transparentes para apoiar decisões políticas e empresariais mais eficazes.
Do lado empresarial, Carlos Gabirro centrou a sua intervenção na produção com resíduos zero e na evolução das exigências dos consumidores. Segundo o CEO da Biostasia, práticas mais sustentáveis já não são uma tendência de nicho, mas uma exigência crescente do mercado. Defendeu ser possível produzir de forma mais sustentável sem comprometer a rentabilidade, recorrendo a novas tecnologias e a abordagens agronómicas inovadoras. “É possível aumentar a produtividade e reduzir custos”, garantiu, e acrescentou também que a transição exige sobretudo uma mudança de mentalidade por parte dos produtores.
A perspetiva financeira foi apresentada por Filipa Saldanha, que frisou o papel da banca no apoio à adaptação do setor agrícola às alterações climáticas. A responsável do Crédito Agrícola explicou que a instituição tem vindo a desenvolver soluções de financiamento orientadas para investimentos em eficiência hídrica, agricultura de precisão e práticas regenerativas, mas advertiu que o acesso ao financiamento vai depender, cada vez mais, da capacidade das empresas demonstrarem a sua preparação para os riscos climáticos. “Precisamos de dados granulares para proteger os nossos clientes e os nossos ativos”. Na sua visão, a recolha e gestão de informação sobre adaptação climática vão ser determinantes não apenas para melhorar a resiliência das explorações, mas também para facilitar o acesso ao crédito num contexto regulatório cada vez mais exigente.
Entre os temas da água, tecnologia, financiamento e eficiência produtiva, resultou uma mensagem clara do painel: a sustentabilidade na vitivinicultura depende cada vez mais da capacidade de medir, conhecer e gerir melhor os recursos disponíveis.
Com mais de 40 anos de experiência na transformação e tratamento de madeira, a empresa opera duas unidades industriais em Portugal e exporta para mais de 50 países, sendo as exportações responsáveis por mais de metade da sua faturação. Na vinha, a oferta passa por postes de madeira e metálicos para cabeceiras e estruturas intermédias, tutores, arames, acessórios e serviços de montagem ‘chave na mão’.
Segundo Tiago Cardoso, o objetivo passa por disponibilizar soluções que aliem durabilidade, produtividade e sustentabilidade. No caso dos postes de madeira, destacou a utilização de matéria-prima de elevada qualidade e processos de tratamento que permitem oferecer garantias até 20 anos. Já nos postes metálicos, salientou a diversidade de perfis e materiais disponíveis, incluindo aço corten, cada vez mais procurado em projetos ligados ao enoturismo, e soluções concebidas para ambientes mais exigentes, como as vinhas localizadas junto à costa marítima.
A escassez e o custo da mão de obra foram, do mesmo modo, identificados como constragimentos que têm orientado o desenvolvimento de novos produtos. Em parceria com fabricantes especializados, a CarmoFarm tem apostado em acessórios que simplificam a instalação, manutenção e gestão das vinhas. O responsável, apontou como exemplo equipamentos que permitem a uma única pessoa realizar operações que tradicionalmente exigiam mais trabalhadores.
A apresentação terminou com a referência ao serviço de instalação disponibilizado pela empresa, assegurado por equipas próprias e por uma rede de parceiros especializados, capaz de dar resposta a projetos em diferentes regiões agrícolas de Portugal e no estrangeiro.
A vertente prática da sessão foi assegurada por Luís Constantino, responsável de viticultura da Herdade dos Grous, que apresentou um caso de estudo assente na integração de ovinos na gestão das vinhas em modo de produção biológico. Numa exploração localizada no Baixo Alentejo, com 123 hectares de vinha e solos pobres em matéria orgânica, a estratégia surgiu como alternativa ao controlo mecânico do coberto vegetal e enquadra-se numa abordagem de agricultura regenerativa.
“Temos que aprender um bocadinho com aquilo que já foi feito”, disse o técnico, resumindo uma filosofia que combina conhecimento tradicional com novas formas de gestão. Atualmente, cerca de duas mil ovelhas são utilizadas para gerir a biomassa produzida nas culturas permanentes, promovendo simultaneamente a ciclagem de nutrientes e a melhoria da fertilidade do solo.
Os resultados preliminares apontam para benefícios agronómicos e ambientais relevantes. Entre novembro e fevereiro, a exploração deixou de realizar três passagens anuais de maquinaria para controlo do coberto vegetal, o que representa uma redução estimada de cerca de 3.500 litros de gasóleo e de nove toneladas de emissões de CO₂. Paralelamente, registou-se um aumento de 0,5% do teor de matéria orgânica em várias parcelas ao longo dos últimos três anos, contribuindo para melhorar a retenção de água e a atividade biológica do solo.
Apesar dos resultados encorajadores, Luís Constantino salientou que o modelo exige acompanhamento permanente, coordenação logística e adaptação contínua às condições de cada campanha. “Não é só pôr lá as ovelhas e esquecermo-nos delas”, referiu, defendendo que a observação e a flexibilidade são determinantes para o sucesso deste tipo de abordagem.
Com mais de 15 anos de atividade na área do controlo biológico, a empresa desenvolve soluções assentes na regeneração dos solos, na nutrição orgânica e na proteção biológica das culturas. Segundo a oradora, a abordagem passa por trabalhar “desde o início da produção até garantir que o fruto chegue ao prato”, recorrendo a produtos de origem natural e estratégias adaptadas a cada exploração.
Na vinha, a empresa concentra a sua atuação na regeneração biológica, na nutrição orgânica e em soluções naturais que reforçam a resiliência das plantas perante diferentes fatores de stress. “Não há uma solução ótima. Há o adequar a cada momento”, sublinhou Marisa Morgado Saias, reforçando a importância de ajustar as recomendações às condições específicas de cada cultura.
A responsável apresentou ainda o caso de uma vinha conduzida ao longo de uma campanha exclusivamente com soluções ecológicas, afirmando que foi possível obter produção e qualidade sem recorrer a químicos. Segundo os dados partilhados, os custos mantiveram-se alinhados com os sistemas convencionais, contrariando a perceção de que a produção em modo ecológico implica necessariamente maiores encargos.
Entre as novidades da empresa está a introdução de serviços com drones para monitorização, fertilização e aplicação de produtos naturais.
Gonçalo Rodrigues, professor auxiliar do Instituto Superior de Agronomia, sublinhou que a viticultura tem de encontrar formas de produzir mais e melhor num contexto marcado pelo aumento dos custos de produção, da energia, dos fertilizantes e da pressão climática. Nesse sentido, considerou que o principal desafio já não é a existência de tecnologia, mas a sua disseminação junto de uma realidade agrícola muito heterogénea. “Temos de desmistificar que a tecnologia é um problema”, declarou, apelando depois a uma maior aproximação entre a academia e os produtores. Nesse sentido, o docente alertou para o que considera ser um afastamento crescente entre o conhecimento produzido nos centros de investigação e a sua aplicação prática no terreno. Na sua opinião, é necessário reforçar os mecanismos de transferência de conhecimento, melhorar a comunicação e recolher mais contributos dos agricultores para compreender as dificuldades reais de adoção das novas ferramentas. “Precisamos de conhecer as dificuldades de quem trabalha com isto no terreno”, salientou.
Também Rui Costa Martins, investigador sénior do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC), ressaltou a importância de tornar a tecnologia mais compreensível e útil para os produtores. Segundo explicou, muitas das soluções atualmente disponíveis fornecem indicadores e dados, mas nem sempre conseguem explicar de forma clara a relação entre esses dados e a fisiologia da planta. O caminho, defendeu, passa por desenvolver sistemas capazes de apoiar decisões mais precisas e fundamentadas, permitindo intervenções antecipadas e ajustadas às necessidades reais da cultura.
Na sua intervenção, Rui Costa Martins rejeitou a ideia de uma agricultura totalmente automatizada e sem intervenção humana. Em vez disso, apontou para um futuro assente em ferramentas que ajudem a compreender melhor o comportamento das videiras e a otimizar a sua resposta perante fatores como o défice hídrico, as temperaturas extremas ou outras situações de stress. “A tecnologia deixa de ser um custo e passa a ser um fator ultracompetitivo”, afirmou Rui Costa Martins.
Do lado dos produtores, Miguel Cachão, técnico da Associação de Viticultores do Concelho de Palmela (AVIPE), partilhou a experiência da associação na introdução de tecnologias de monitorização e recolha de dados junto dos viticultores da região. O responsável reconheceu que os custos e a complexidade de algumas soluções continuam a ser obstáculos, sobretudo para os produtores de menor dimensão. De qualquer modo, defendeu que a demonstração prática dos benefícios continua a ser a forma mais eficaz de promover a adoção destas ferramentas.
A questão do financiamento marcou igualmente o debate. Os participantes consideraram que os apoios públicos vão continuar a ser determinantes para acelerar a modernização tecnológica das explorações, sobretudo num contexto de margens cada vez mais reduzidas. Para Miguel Cachão, a ação das associações pode desempenhar um papel decisivo ao facilitar o acesso dos pequenos produtores a serviços e tecnologias que, individualmente, seriam mais difíceis de implementar.
A Conferência Técnica da Vinha 2026: ‘Tecnologia, clima e sustentabilidade na vitivinicultura do futuro’ é dinamizada no âmbito dos Encontros Profissionais B2B da Induglobal, do Grupo Interempresas, com o suporte técnico da Fakoy.

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