A combinação de energia renovável a preços mais competitivos e uma dinâmica de investimento superior à de várias das maiores economias europeias está a reforçar a posição de Portugal e Espanha na captação de novos projetos industriais. Segundo um relatório do McKinsey Global Institute, esta vantagem surge numa altura em que a Europa enfrenta um défice estrutural de investimento e assiste a uma redistribuição da atividade industrial.
A Península Ibérica está a emergir como uma das regiões mais competitivas da Europa para atrair novos projetos industriais, em particular em setores intensivos em energia, num momento em que a o continente enfrenta um défice estrutural de investimento. As conclusões são do novo estudo ‘Catalyzing competitiveness: Where investment happens and why’, do McKinsey Global Institute (MGI), que identifica uma nova ‘cartografia da competitividade’, em que o investimento produtivo surge como principal indicador da capacidade económica das regiões.
A análise revela que o mapa global do investimento se está a transformar de forma acelerada, com divergências crescentes entre as principais economias. Na Europa, o investimento estagnou, com a região a apresentar um défice estrutural de investimento de cerca de 800 mil milhões de euros por ano, ou seja, o investimento atual está muito abaixo do necessário para sustentar crescimento e competitividade no longo prazo. Nos Estados Unidos, a prioridade é reforçar o investimento na indústria para reduzir dependências externas. Já a China continua a expandir a sua capacidade produtiva a um ritmo muito superior, acrescentando cerca de três vezes mais capacidade produtiva por ano do que os Estados Unidos e a Europa combinados, embora com níveis de rendibilidade por unidade de capital investido cerca de 40% inferiores.
Neste novo contexto competitivo, as decisões de investimento são cada vez mais determinadas por fatores económicos concretos, como custo, produtividade e velocidade de execução, e não apenas por fatores históricos ou geográficos.
O estudo evidencia diferenças significativas nestas dimensões entre geografias. Em média, nas indústrias analisadas, produzir na Europa ou nos Estados Unidos pode custar pelo menos mais 50% do que em países que atualmente atraem mais investimento. No caso da indústria, este diferencial está sobretudo associado a custos laborais mais elevados que não são compensados por maior produtividade, o que reduz diretamente a atratividade para novos investimentos industriais. Em investigação e desenvolvimento, essa diferença pode chegar a cerca de 300%, refletindo processos mais longos e menor rapidez no lançamento de novos produtos no mercado.
A estes fatores somam-se as diferenças nos custos energéticos e de matérias-primas, particularmente relevantes em indústrias intensivas, que penalizam a competitividade europeia. Paralelamente, as políticas públicas também têm impacto direto na competitividade, sendo que os apoios podem variar até oito vezes entre regiões, criando condições significativamente diferentes para atrair investimento.
É neste enquadramento que a Península Ibérica se destaca como uma exceção relevante dentro da Europa. Beneficiando de custos de energia renovável mais competitivos, Portugal e Espanha oferecem condições mais favoráveis para projetos industriais intensivos em eletricidade, tornando-se destinos crescentemente atrativos para novos investimentos.
A Península Ibérica combina esta vantagem energética com uma dinâmica de investimento mais favorável do que outras grandes economias europeias. O relatório identifica Portugal como uma das histórias de recuperação do investimento mais fortes da Europa, destacando a recuperação registada após a crise da dívida soberana da Zona Euro. Em Portugal, a taxa de investimento produtivo líquido atingiu 4,6% do PIB em 2024, posicionando o país entre os desempenhos mais robustos da Europa em matéria de investimento produtivo e significativamente acima dos níveis observados em várias grandes economias europeias. Em Espanha, essa taxa situa-se acima de 2% do PIB, colocando ambos os países acima da Alemanha, onde o indicador caiu para cerca de 0,2%, no mesmo período. Estes dados evidenciam que a fragilidade do investimento europeu não é uniforme e que Portugal e Espanha apresentam um posicionamento relativamente mais robusto no contexto atual.
A esta dinâmica soma se uma vantagem energética estrutural. O relatório sublinha que a energia solar e a eólica são abundantes na Península Ibérica e que muitos projetos industriais intensivos em energia estão já a ser desenvolvidos na região, e nos países nórdicos, em detrimento de centros industriais tradicionais europeus. Este posicionamento reflete uma progressiva redefinição da geografia industrial europeia, e já está a traduzir-se em decisões concretas de localização de investimento que favorecem regiões com custos energéticos mais competitivos.
Ainda assim, o reforço da competitividade europeia, incluindo nas regiões mais bem posicionadas, exigirá uma transformação estrutural profunda. Uma análise prospetiva indica que ganhos de produtividade na ordem dos 30%, aliados à convergência dos custos de equipamentos, energia e materiais e a uma maior rapidez na execução de projetos e no tempo de chegada ao mercado, poderão reduzir entre 30% e 80% do diferencial de custos, aproximando a Europa das economias mais competitivas.
Sete alavancas de atuação incluem a otimização do investimento em capital (capex), nomeadamente através da industrialização dos processos de construção e da simplificação dos processos burocráticos; o reforço da produtividade laboral, com recurso à automação e à inteligência artificial; e o acesso a energia limpa, abundante e competitiva, com impacto direto na atratividade de indústrias intensivas em energia.
O relatório destaca ainda a importância de acelerar o tempo de chegada ao mercado, simplificando processos e encurtando ciclos de desenvolvimento; reforçar a inovação e a diferenciação para competir em valor e não apenas em custo; e promover a especialização em setores críticos e menos sensíveis ao custo, com relevância estratégica e geopolítica - como semicondutores avançados, biotecnologia ou infraestruturas de supercomputação para inteligência artificial.
Por fim, sublinha o papel da transparência das políticas industriais na criação de condições de concorrência mais equilibradas, através de instrumentos que possam mitigar distorções nos mercados internacionais e apoiar a atração de investimento.
Neste novo mapa global da competitividade, a Península Ibérica surge, assim, não apenas como uma oportunidade conjuntural, mas como um dos poucos exemplos na Europa onde vantagens estruturais, em particular no acesso a energia competitiva, estão já a traduzir-se numa maior capacidade de atrair investimento e de reposicionar a região nas cadeias de valor industriais do futuro. Para Portugal, esta tendência é particularmente relevante: embora parta de uma base histórica de capital produtivo por trabalhador relativamente reduzida - cerca de 60 a 70 mil euros por trabalhador, abaixo de muitas economias europeias mais desenvolvidas - e de níveis de PIB por trabalhador em torno de 35 a 45 mil euros, o país destaca-se atualmente pela forte recuperação do investimento produtivo e pelas condições favoráveis para captar novos projetos industriais.

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