Os mercados agrícolas da União Europeia (UE) deverão manter-se resilientes em 2026, apesar da subida dos custos da energia e dos fertilizantes, da persistência das tensões geopolíticas e da incerteza económica. Nas perspetivas de curto prazo para os mercados agrícolas, divulgadas pela Comissão Europeia, Bruxelas prevê uma produção de cereais próxima da média dos últimos cinco anos, um aumento da produção de oleaginosas e uma ligeira recuperação da produção portuguesa de azeite, num contexto em que os custos de produção continuam a condicionar a atividade agrícola.
Segundo a Comissão Europeia, o contexto económico permanece marcado pela incerteza. O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da UE deverá abrandar para 1,1% em 2026, enquanto a inflação deverá atingir 3,1%, impulsionada sobretudo pelos preços da energia, na sequência das tensões no Médio Oriente. A instituição alerta que um agravamento da situação geopolítica ou novos constrangimentos nas exportações energéticas e no transporte marítimo podem manter elevados os preços do petróleo e do gás, com reflexos na inflação e nos custos de produção agrícola.
Os custos globais dos fatores de produção estabilizaram ao longo de 2025, mas voltaram a aumentar no primeiro trimestre deste ano. A energia registou uma subida de 5,6% e os fertilizantes de 4,2%, tendência que pode prolongar-se durante o resto de 2026. Embora a disponibilidade de fertilizantes azotados seja atualmente suficiente, a dependência europeia das importações mantém o setor vulnerável à evolução dos mercados internacionais.
A Comissão Europeia dedica um capítulo específico ao mercado dos fertilizantes, salientando que, apesar da recente descida dos preços, estes permanecem significativamente acima dos níveis de 2024. Em abril, os fertilizantes azotados chegaram a custar mais 72% do que há dois anos e, embora os preços tenham começado a aliviar, a sua acessibilidade para os agricultores voltou a aproximar-se dos níveis registados em 2022.
O relatório indica que o impacto deverá ser limitado nas culturas de inverno, cujas compras de fertilizantes foram efetuadas antes do agravamento da situação. No entanto, as culturas de primavera e verão podem ser mais afetadas, admitindo-se uma redução da fertilização e até da área dedicada ao milho.
Para responder a este cenário, a Comissão Europeia adotou, em maio, um Plano de Ação para os Fertilizantes. Entre as medidas previstas estão apoios excecionais aos agricultores para a campanha 2026/2027, maior flexibilidade na aplicação da Política Agrícola Comum (PAC) e iniciativas destinadas a acelerar a descarbonização da indústria europeia dos fertilizantes, diversificar as fontes de abastecimento e promover alternativas de base biológica e de baixo carbono.
A produção europeia de cereais deverá atingir 273,7 milhões de toneladas na campanha 2026/2027, menos 5,6% do que no ano anterior. A redução explica-se pelo regresso das produtividades a níveis mais próximos da média, após uma campanha excecionalmente favorável para o trigo e a cevada. Apesar desta quebra, Bruxelas considera que os elevados stocks disponíveis permitirão manter exportações robustas de trigo, enquanto o consumo interno de cereais deve permanecer globalmente estável.
Em sentido contrário, a produção de oleaginosas deverá aumentar 3,1%, impulsionada pelo crescimento da área cultivada e pela melhoria da produtividade do girassol. O relatório prevê ainda uma produção recorde de farinhas de oleaginosas e um aumento da produção de óleos vegetais, enquanto o consumo deverá manter-se estável, com o maior recurso ao óleo de girassol a compensar a redução contínua da utilização de óleo de palma na produção de biocombustíveis.
Já a produção de culturas proteicas deverá recuar ligeiramente face à campanha anterior, mas permanecerá 17% acima da média dos últimos cinco anos.
No açúcar, a produção deverá descer para 14,1 milhões de toneladas, menos 15% do que na campanha anterior, refletindo a redução da área de beterraba sacarina, motivada pelo aumento dos custos de produção e pelo recuo dos preços após os máximos históricos. As exportações deverão diminuir, as importações aumentar e o consumo manter-se estável.
As previsões meteorológicas apontam para condições globalmente favoráveis às culturas de inverno, cujas produtividades deverão situar-se ligeiramente acima da média dos últimos cinco anos. Ainda assim, a Comissão Europeia alerta que as culturas de verão, nomeadamente o milho e a beterraba sacarina, poderão enfrentar dificuldades em várias regiões da Europa devido às elevadas temperaturas previstas e à escassez de precipitação, sobretudo onde os solos já apresentam baixos níveis de humidade.
O relatório refere igualmente que existe uma forte probabilidade de desenvolvimento de um episódio intenso de El Niño ao longo de 2026. Embora o fenómeno não deva ter impactos significativos na produção agrícola europeia, poderá afetar a oferta agrícola mundial e influenciar os mercados internacionais.
No setor do azeite, a Comissão Europeia prevê que a produção da UE recue 5% face à campanha anterior, situando-se ligeiramente abaixo dos 2,1 milhões de toneladas. Ainda assim, o volume vai continuar a crescer cerca de 9% acima da média dos últimos cinco anos.
Entre os principais produtores, Espanha e Grécia deverão registar quebras de produção devido às condições climatéricas, enquanto Portugal deverá contrariar esta tendência, com um crescimento estimado de cerca de 1%, por ter sido menos afetado pelas condições agroecológicas adversas.
A Comissão Europeia prevê ainda um aumento de 6% das exportações europeias de azeite, favorecidas pela descida dos preços, enquanto as importações deverão crescer 24%, impulsionadas pela maior disponibilidade de azeite tunisino. Para a campanha 2026/2027, as perspetivas são positivas, caso as condições meteorológicas se mantenham favoráveis durante o desenvolvimento e a colheita das azeitonas.

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