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Posicionamento institucional da Associação de Proprietários e Beneficiários do Alqueva (APBA)

A ilusão dos ‘rios livres’ num Alentejo em desertificação: o dogma vs. a realidade climática

António Lima, presidente da direção da Associação de Proprietários e Beneficiários do Alqueva (APBA)14/07/2026
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O recente manifesto da Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável, exigindo a suspensão imediata dos concursos públicos para os estudos das novas barragens nas ribeiras de Terges e Cobres e de Carreiras, confirma uma desconexão preocupante entre o ativismo de gabinete e a realidade de um território em risco. Enquanto a Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva (EDIA), com base numa avaliação técnica rigorosa e na necessidade imperativa de aumentar a resiliência do sistema Alqueva-Pedrógão, dá os primeiros passos para mobilizar recursos hídricos em bacias atualmente não dominadas, a Zero responde com slogans ideológicos que ignoram por completo a complexidade do regime hidrológico mediterrânico.

É sintomático notar que, enquanto a associação ambientalista apela à paralisia e à asfixia económica do interior, a Câmara Municipal de Mértola – que conhece o território e os efeitos dramáticos da escassez hídrica como ninguém – aplaude convictamente estes projetos, classificando-os como passos estruturantes e decisivos para o futuro do desenvolvimento local. Para quem vive e trabalha no Baixo Alentejo, a água não é um conceito abstrato de debate televisivo; é a linha ténue que separa a sobrevivência económica da desertificação física e humana.

As ribeiras de Terges, Cobres e Carreiras são linhas de água caracterizadas por um regime marcadamente torrencial: apresentam volumes significativos durante escassos meses de inverno e ficam completamente secas ao longo de mais de metade do ano. Sem capacidade de armazenamento estratégico, reter a água das cheias invernais para assegurar a manutenção de caudais ecológicos mínimos na época estival torna-se impossível. Libertar estes cursos de água, como pretende a Zero, significa ver toda a água correr diretamente para o mar em janeiro, deixando os ecossistemas colapsados e sem uma única gota em julho. Reter a água na época das cheias não é uma agressão à natureza; sob a realidade das alterações climáticas, é o único escudo eficaz para a proteger.

A narrativa recorrente de que o regadio moderno agrava a crise hídrica esbarra na tecnologia e nos dados de eficiência que transformaram o Baixo Alentejo num exemplo internacional. O olival em sebe e as modernas culturas da região recorrem a sistemas de gota-a-gota geridos por sensores de humidade e dados meteorológicos em tempo real, reduzindo drasticamente o consumo hídrico por quilo de alimento produzido. Num contexto geopolítico global instável, abdicar da soberania alimentar e transferir a produção para países terceiros com pegadas ecológicas massivas não é ecologia; é irresponsabilidade social.

Torna-se, por isso, imperativo questionar a insistência neste alarmismo infundado. Quando as propostas apresentadas colidem de forma tão flagrante com a ciência, a engenharia e a vontade das populações locais, é legítimo indagar a quem serve esta agenda. Infelizmente, assistimos à conversão do ativismo numa indústria institucionalizada altamente rentável. Sob a capa do altruísmo ecológico, estas associações dependem vitalmente de uma máquina de financiamento público que, entre candidaturas ao Fundo Ambiental, protocolos diretos com o Estado e subvenções europeias, capta centenas de milhares de euros anualmente – somando largos milhões de euros na última década. Para estas estruturas, a perpetuação do conflito e a criação de falsas crises funcionam como uma indispensável ‘prova de vida’: o ruído mediático justifica a dotação de verbas que, em grande parte, se destinam a alimentar os ordenados, as avenças e a logística dos próprios aparelhos que as gerem. É uma agenda que garante o sustento de quem vive das subvenções no asfalto, mas que abandona à sua sorte quem efetivamente cuida e trabalha a terra.

O restauro ecológico é um objetivo nobre quando aplicado com critério técnico e adaptado ao território. Porém, usá-lo como arma ideológica para travar infraestruturas vitais de armazenamento de água no sul da Europa é um erro histórico.

Defendemos um Alentejo vivo, sustentável e tecnológico, onde a engenharia e a natureza cooperam para garantir que a água serve a vida, a biodiversidade e a soberania do país. Não permitiremos que o futuro de uma região inteira seja refém de uma agenda que confunde preservação com abandono.

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