Os ciclos biológicos da agricultura são uma das mais claras inspirações para o modelo da economia circular. Neste modelo económico pretende-se que os produtos, materiais e recursos se mantenham em utilização durante o máximo de tempo possível. Procura-se, de certa forma, uma semelhança aos ciclos da mãe Natureza. Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, como aprendemos em tempos passados, numa mesa de escola, com a célebre lei de Lavoisier.
O enfoque da circularidade é um aumento de eficiência de recursos, seja por via de uma melhor utilização (em que muitas vezes se conseguem reduções de consumo), de reutilização ou valorização. Isso faz sentido em qualquer setor, especialmente num contexto de escassez ou aumento de preços de matérias-primas ou auxiliares.
A agroindústria tem a particularidade de gerar grandes quantidades de subprodutos valorizáveis - biomassa orgânica com potencial de valorização. Cascas, folhas, bagaços, soros lácteos (tão ricos em proteína) ou polpas da indústria alimentar são apenas alguns exemplos de materiais que podem voltar (e em parte já voltam) ao ciclo produtivo e criar valor, sob a forma de fertilizantes, ingredientes para alimentação, energia ou tantos outros.
Ao evocar exemplos, há um marcante, pelo seu valor e pelo que se está a desperdiçar: a lã, a nobre lã, atualmente enterrada por tantos pastores ou criadores, mas que poderia ter um outro destino industrial, mais digno e útil. Tal contrasta com uma das metas do Plano de Ação para a Bioeconomia Sustentável, agora em revisão, que estabeleceu, para o setor têxtil e do vestuário, a substituição, até 2030, de 40% das fibras de origem fóssil usadas na produção, por fibras de base biológica produzidas em Portugal.
Por outro lado, no ramo alimentar, é conhecido o gritante desperdício nacional ao longo da cadeia de valor (cerca de 180 quilos de alimentos por ano, por pessoa), dos valores mais elevados da Europa. Cerca de 10% diz respeito ao desperdício na produção primária ou industrial.
Ora, a agroindústria tem a capacidade de fechar ciclos e produz um manancial de recursos ‘renováveis’.
Por tudo isto, sim, faz todo o sentido investir em circularidade neste setor.
A valorização de subprodutos agrícolas e agroindustriais representa muitas vezes uma oportunidade real de criação de valor económico. Quem consegue transformar resíduos em recursos terá menor dependência externa. A própria reutilização de água ou a melhoria da eficiência energética constituem medidas de circularidade e traduzem-se numa operação industrial otimizada e com menores custos. Todas estas são mais-valias para qualquer produtor. Uma maior circularidade poderá também reforçar a imagem da empresa e tornar os produtos mais atraentes para consumidores com sensibilidade ambiental. Para além disso, uma maior circularidade poderá igualmente facilitar o acesso a financiamentos, o que se traduz num ganho em termos de competitividade das agroindústrias.
O consumidor também ganha. Pode beneficiar de produtos com maior valor nutricional por via da circularidade (por exemplo, fibra das cascas ou antioxidantes de vegetais valorizados), bem como de uma maior diversidade de produtos e estabilidade de oferta. É possível que também fique favorecido com maior previsibilidade de preços e menor pressão sobre esses mesmos preços a longo prazo, em virtude de uma maior independência de produção. Pode também ganhar com a menor pegada ambiental associada à sua alimentação, indo ao encontro das expectativas de consumidores (cada vez mais) atentos ao impacto ambiental das suas ações.
O ambiente (e consequentemente todos nós) é beneficiário desta circularidade. Menor produção de resíduos, cadeias de fornecimento mais curtas, com menor necessidade de transporte, mitigação das emissões de gases com efeito de estufa, entre outros, serão consequência de muitas das medidas de circularidade na agroindústria.
Os territórios rurais podem beneficiar da economia circular através da já mencionada criação ou reforço de cadeias de valor locais, simbioses industriais entre empresas vizinhas ou próximas, maior dinamização económica, estímulo à inovação, emprego e da própria imagem da região. Em sequência, poderá afirmar-se que investir em circularidade é investir na luta contra a desertificação de áreas rurais, tão perniciosa no nosso país.
Em suma, maior circularidade na agroindústria traduz-se num sistema alimentar mais eficiente, capaz de criar valor económico e social, enquanto reduz a pressão sobre os recursos naturais.
Na verdade, a questão até poderia ser reformulada: quem continua a perder ao manter um modelo linear?
Por vezes o desafio não está em reconhecer a importância da circularidade, mas em perceber onde agir e quais os próximos passos a dar. Na verdade, na agroindústria, muitas oportunidades circulares continuam invisíveis, inacessíveis ou adiadas, por múltiplas razões. A falta de dados e de know-how, a falta de incentivos, a perceção da circularidade como um custo e não investimento, são apenas alguns exemplos de barreiras que dificultam a adoção de práticas mais circulares.
A medição da circularidade permite transformar um conceito muitas vezes abstrato numa realidade quantificável, analisando não apenas o negócio, mas também os processos que lhe dão suporte.
Ao avaliar aspetos como a utilização eficiente dos recursos, a gestão de resíduos, a valorização de subprodutos ou as simbioses possíveis, as empresas conseguem perceber onde estão os seus principais pontos fortes e onde existe margem para evoluir.
Neste contexto, ferramentas como o eCIRCULAR podem desempenhar um papel relevante ajudando as organizações a (1) avaliar o seu nível de maturidade em economia circular; (2) identificar oportunidades de melhoria; (3) estruturar e concretizar um plano de ação consistente, e (4) comunicar de forma credível o seu compromisso com a sustentabilidade.
O eCIRCULAR, desenvolvido pela ADENE, e com utilização e expansão previstas no documento estratégico nacional ‘Plano de Ação para a Economia Circular 2030’ é um motor para que as organizações dinamizem ações e obtenham resultados práticos e evolutivos ao nível da eficiência de recursos e preservação ambiental.
Trata-se de uma ferramenta abrangente, aplicável a múltiplos setores, e que permite uma avaliação do desempenho da circularidade das empresas e outras entidades, por auditores, com a emissão de um documento formal com a respetiva classificação de F (a pior) a A+ (a melhor), e a delineação de um plano de ação.
Até ao momento, o eCIRCULAR conta com a adesão de muitas organizações, com classificações de mais de 80 instalações, sendo dez do setor da agroindústria. Nestas classificações foram sugeridas às organizações agroindustriais mais de 65 medidas de circularidade, tais como o aproveitamento da água da chuva, redução de uso de materiais em embalagens, redução de ‘produto não conforme’ através da implementação de medidas de controlo de qualidade, ou o desenvolvimento de simbioses de recuperação de coprodutos.
Ao tornar a circularidade mensurável e mostrar caminho, ferramentas como o eCIRCULAR permitem passar da intenção à ação e apoiar decisões baseadas em evidências.
Porque, no final, a circularidade mede-se pelos resultados. E melhorar para ganhar poderá ser um bom resumo do que o eCIRCULAR pretende alcançar.
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Agriterra - Informação profissional para a agricultura portuguesa