Mais de 95% da produção da Lusomorango é destinada à exportação
A produção nacional de pequenos frutos mais do que triplicou em dez anos, mas, como explica, em entrevista, Joel Vasconcelos, “não basta aumentar a capacidade produtiva”. É necessário investir em conhecimento, tecnologia e prevenção do risco e criar condições para que os produtores possam recuperar quando ocorrem fenómenos extremos. É ainda fundamental “que exista previsibilidade regulatória”, defende o CEO da Lusomorango.
O estudo da EY-Parthenon apresentado em junho mostra que os pequenos frutos geraram 1.037 milhões de euros de VAB em Portugal, sustentaram 34.369 empregos equivalentes a tempo completo (ETC), geraram 629 milhões de euros em remunerações totais associadas à fileira, e 276 milhões de euros em receita fiscal total, em 2025. A produção nacional mais do que triplicou em dez anos, passando de 27,6 mil toneladas (2015) para 91,4 mil toneladas (2025), com um valor de produção de 580 milhões de euros, e exportações de 398 milhões de euros.
Estes números mostram a dimensão que a fileira já alcançou, mas também aumentam a responsabilidade de criar condições para que este crescimento seja sustentável e para que o valor gerado continue a chegar aos produtores e aos territórios onde a produção agrícola está instalada.
Ao mesmo tempo, a campanha confirma a importância de manter o foco na qualidade e na capacidade de resposta aos mercados. Mais de 95% da produção da Lusomorango é destinada à exportação, nomeadamente para mercados da Europa Central e do Norte, pelo que a competitividade dos produtores depende da capacidade de assegurar qualidade, consistência e cumprimento de requisitos cada vez mais exigentes.
O ano de 2026 começou com o impacto das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram danos significativos em produções e infraestruturas agrícolas, como túneis, sistemas de rega, equipamentos essenciais e plantas, com custos superiores a dez milhões de euros e perda de 50% e 70% da capacidade produtiva dos produtores afetados.
Este início de campanha veio demonstrar, de forma muito concreta, a exposição da atividade agrícola a fenómenos meteorológicos extremos e a necessidade de reforçar a capacidade de prevenção, preparação e resposta dos produtores.
Para a Lusomorango, este é um dos principais ensinamentos dos últimos anos: não basta aumentar a capacidade produtiva; é necessário preparar melhor as produções para um contexto de maior incerteza climática, investir em conhecimento, tecnologia e prevenção do risco e criar condições para que os produtores possam recuperar mais rapidamente quando ocorrem fenómenos extremos.
Os pequenos frutos são uma das fileiras agrícolas mais dinâmicas de Portugal e os dados apresentados pela EY-Parthenon confirmam uma evolução muito expressiva. Esta evolução resulta de uma combinação de fatores: investimento dos produtores, conhecimento técnico, inovação, condições geográficas favoráveis, organização da produção e uma forte orientação para os mercados internacionais.
Mas este crescimento não pode ser dado como adquirido. Temos hoje desafios muito concretos: água, alterações climáticas, mão de obra, burocracia, infraestruturas e previsibilidade regulatória.
A água é talvez o exemplo mais evidente. Sem água não existe agricultura e, por isso, é fundamental concretizar os investimentos previstos para a modernização do Perímetro de Rega do Mira e reforçar as interligações hídricas previstas para o Sudoeste Alentejano. Ao mesmo tempo, temos de continuar a investir na eficiência da utilização da água e no conhecimento.
Existe também uma oportunidade clara na inovação. Portugal não tem de competir com os maiores produtores mundiais pela escala. O nosso posicionamento passa pela produção de culturas de maior valor, pela qualidade, pela diferenciação, pela inovação e pela capacidade de responder a mercados exigentes.
O estudo da EY-Parthenon mostra precisamente esta diferenciação: enquanto a produção mundial e europeia continua fortemente assente no morango, Portugal apresenta uma maior especialização em framboesa, amora e mirtilo.
Do ponto de vista das políticas públicas, precisamos de estabilidade, simplificação administrativa, investimento em infraestruturas, instrumentos adequados de gestão do risco e condições para que os produtores possam continuar a investir.
O Plano de Gestão Ambiental (PGA) 2026-2028 é um projeto estruturante da Lusomorango, desenvolvido no âmbito do Programa Operacional 2026-2028, que pretende apoiar os produtores associados na resposta às crescentes exigências ambientais, regulamentares e de mercado.
Um dos princípios fundamentais do PGA é medir para conhecer e conhecer para melhorar. O projeto prevê uma avaliação integrada da pegada de carbono, de acordo com a ISO 14067, da pegada hídrica, de acordo com a ISO 14046 e da pegada ecológica. Esta abordagem permitirá construir uma visão mais abrangente do desempenho ambiental das produções agrícolas.
Entre os objetivos estão a redução das emissões associadas à produção e à logística, a melhoria da eficiência hídrica, a redução da utilização de fitofármacos e fertilizantes, o reforço da resiliência das culturas às alterações climáticas, a promoção da biodiversidade e o incentivo à economia circular.
O PGA prevê ainda a criação de um Índice de Sustentabilidade, que permitirá consolidar indicadores ambientais, sociais e económicos e acompanhar a evolução ao longo do tempo.
Há uma dimensão que considero particularmente importante: este não é um plano pensado apenas para cada produtor individualmente. É um projeto conjunto. A Lusomorango tem a capacidade de reunir informação, conhecimento e recursos e de criar uma verdadeira economia de escala, partilhando esse conhecimento com os produtores associados e com outras entidades que dele necessitem.
A sustentabilidade tem de deixar de ser apenas uma intenção e passar a ser cada vez mais uma realidade medida, acompanhada e melhorada.
A mão de obra continua a ser uma questão central para toda a economia nacional e, naturalmente, também para a agricultura portuguesa e, em particular, para territórios onde a produção agrícola tem uma forte necessidade de trabalhadores.
O tema não pode ser analisado apenas numa perspetiva de disponibilidade de pessoas para trabalhar. É necessário olhar para as condições que permitem atrair, fixar e integrar trabalhadores, sobretudo num território como Odemira. Isso significa falar de habitação, saúde, educação, mobilidade, serviços públicos e integração, além das próprias condições de trabalho.
É uma questão que ultrapassa claramente a capacidade individual dos produtores. Precisamos de uma resposta coordenada entre empresas, autarquias e administração central, porque estamos a falar de infraestruturas e serviços que ultrapassam a capacidade de resposta individual de cada produtor, e que são essenciais não apenas para a agricultura, mas para a sustentabilidade económica e social dos territórios.
A Lusomorango tem defendido precisamente essa abordagem. O crescimento da produção agrícola deve ser acompanhado por uma visão territorial, capaz de responder às necessidades das pessoas que vivem e trabalham nestas regiões.
E há uma questão adicional: a competitividade não pode assentar na redução de custos laborais. Tem de assentar em produtividade, organização, conhecimento, tecnologia e capacidade de criar valor.
Estas exigências já fazem parte da realidade dos mercados para os quais trabalhamos. A Lusomorango tem mais de 95% da sua produção destinada à exportação e coloca os seus pequenos frutos em mercados altamente exigentes, como a Alemanha, o Reino Unido e os países nórdicos. A qualidade é, por isso, um fator essencial de diferenciação.
Mas qualidade, hoje, não significa apenas o produto final. Significa também como é produzido, como são utilizados os recursos, qual é a pegada ambiental, como é garantida a rastreabilidade e de que forma se responde às exigências dos clientes e dos consumidores.
É precisamente neste contexto que se enquadra o Plano de Gestão Ambiental da Lusomorango. A avaliação das pegadas de carbono, hídrica e ecológica, a promoção da biodiversidade, a redução do uso de fitofármacos e fertilizantes, a economia circular e a criação de um Índice de Sustentabilidade são ferramentas para responder a uma realidade de mercado que está a mudar.
Também aqui a organização da produção é importante. Uma organização de produtores permite reunir conhecimento, desenvolver estudos, prestar assistência técnica e partilhar boas práticas, criando condições para que os produtores possam responder de forma mais eficiente às exigências dos mercados.
A sustentabilidade é, portanto, simultaneamente uma responsabilidade e um fator de competitividade.
Não podemos pedir aos produtores que sejam simultaneamente mais competitivos, mais sustentáveis, mais eficientes e que cumpram cada vez mais requisitos, sem garantir condições para que isso seja economicamente viável.
A resposta passa, desde logo, por produzir mais valor e não simplesmente mais volume. Portugal não tem escala para competir diretamente com os maiores produtores mundiais, como o México ou os Estados Unidos. O caminho que temos seguido é diferente: apostar em culturas de maior valor, qualidade, diferenciação e capacidade de resposta aos mercados.
Os resultados referidos mostram que esse caminho tem funcionado. Mas competitividade exige também investimento em água, tecnologia, conhecimento, inovação, infraestruturas e organização da produção.
É igualmente fundamental que exista previsibilidade regulatória. Os produtores precisam de saber quais são as regras e de ter condições para se adaptar a elas. A sustentabilidade não deve ser encarada apenas como um custo adicional: deve também ser integrada numa estratégia de eficiência, inovação e gestão do risco.
O Plano de Gestão Ambiental da Lusomorango vai precisamente nesse sentido: medir, identificar oportunidades de melhoria e transformar informação em decisões.
E é importante sublinhar que sustentabilidade económica, ambiental e social não são objetivos concorrentes. O desafio é construir um modelo em que estejam ligados. Uma produção agrícola que não seja economicamente viável não é sustentável; mas também não podemos pensar num modelo económico sustentável se ignorarmos os recursos naturais de que a agricultura depende.
Vejo uma oportunidade muito significativa para a fileira, mas essa oportunidade exige ambição e responsabilidade. A prioridade agora deve ser criar condições para que o crescimento continue, mas de forma equilibrada e sustentável.
Para 2026, o estudo da EY-Parthenon projeta 645 milhões de euros de valor da produção, 36.702 empregos e um contributo de 298 milhões de euros para a receita fiscal nacional.
Para a Lusomorango, isso passa por continuar a investir em conhecimento, inovação, sustentabilidade, eficiência hídrica, organização da produção e acesso aos mercados. Passa também por reforçar a capacidade de os produtores medirem o seu desempenho e identificarem oportunidades concretas de melhoria.
Temos ainda de continuar a trabalhar em parceria com a ciência. O Centro de Investigação para a Sustentabilidade (CIS), criado em 2023 através de uma parceria entre Lusomorango, INIAV, Driscoll’s e Maravilha Farms, é um exemplo dessa aposta. O CIS tem vindo a trabalhar áreas como eficiência e reutilização hídrica, redução do uso de pesticidas, sistemas agrivoltaicos compatíveis com a produção agrícola e promoção da biodiversidade. O trabalho desenvolvido foi distinguido com o Prémio de Sustentabilidade 2025 do COTHN.
Ao mesmo tempo, precisamos de continuar a afirmar Portugal nos mercados internacionais através da qualidade e da diferenciação.
O objetivo não deve ser simplesmente produzir mais pequenos frutos. Deve ser produzir mais e melhor, com mais conhecimento, maior eficiência na utilização dos recursos, maior valor acrescentado e capacidade para responder às exigências dos consumidores e dos mercados. É essa combinação entre competitividade e sustentabilidade que permitirá à fileira continuar a crescer.
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Agriterra - Informação profissional para a agricultura portuguesa