Chaparro Agrícola e Industrial, S.L.
Informação profissional para a agricultura portuguesa

Sustentabilidade no setor vitivinícola: certificação e desafios para as empresas

J. Miguel Costa1, Andreia Pires2, Ana Cavaco3, Elisabete Duarte1

1 LEAF – TERRA, Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa

2 Instituto Superior de Agronomia, Universidade de Lisboa

3 Associação de Viticultores do Concelho de Palmela (AVIPE)

02/10/2026
A certificação para a sustentabilidade tem um papel estratégico no futuro do setor vitivinícola, cada vez mais competitivo
O setor nacional tem falta de dados técnicos e financeiros detalhados que apoiem decisões de investimento
Vinha de sequeiro, Região de Lisboa

Vinha de sequeiro, Região de Lisboa.

1. O setor vitivinícola português: sinopse

Portugal é um dos maiores produtores de vinho a nível europeu e mundial, com cerca de 6,9 milhões de hL produzidos anualmente e uma área cultivada de 169,000 ha, 66% da qual localizada nas regiões do Douro, Alentejo, Vinhos Verdes, e Lisboa (IVV, 2026). Em 2025, as exportações de vinho atingiram os 341 milhões de litros e 953,5 milhões de euros, com um preço médio de 2,80 €/litro (ViniPortugal, 2026).

O contexto atual do setor caracteriza-se por uma diminuição e/ou estagnação do consumo de vinho (OIV, 2025, BMO 2026), resultado da alteração de hábitos de consumo (maior consumo de outras bebidas entre os mais jovens, vinhos com menos/sem álcool) em paralelo com campanhas antiálcool. O cenário geopolítico impõe também incertezas no comércio externo. A ‘nova’ relação UE-EUA prejudica a entrada de vinho europeu no mercado americano, e há uma ‘nova’ dinâmica comercial entre BRICS (ex. África do Sul - China). As alterações climáticas acarretam também problemas com secas mais severas e prolongadas, ondas de calor mais frequentes, maior variabilidade climática (intra e inter anual) que aumentam riscos e perdas de rendimento (IPCC, 2023; Costa et al., 2020a). Os preços baixos da uva, o aumento de custos de produção e a importação de vinho estrangeiro completam o panorama nacional (IVV, 2026).

2. Sustentabilidade vs tipologia das empresas no setor do vinho

O tópico sustentabilidade não é novo, mas continua atual (Costa e Catarino, 2024). Os primeiros programas de sustentabilidade para o setor surgem em 1995 e 1998 na Nova Zelândia e França, respetivamente, estendendo-se depois a outros países (Flores, 2018). A sustentabilidade tornou-se parte integrante da estratégia de competitividade e resiliência empresarial, contribuindo para ganhos de eficiência no uso de recursos (mão-de-obra, água, energia, fitofármacos, produtos enológicos). Os mercados internacionais impõem mais exigências e países como a Suécia, a Noruega, a Finlândia, o Canadá e mesmo os EUA, onde o Estado é o único comprador e retalhista autorizado, exigem cada vez mais certificações.

Os programas de certificação para a sustentabilidade facilitam a organização interna das empresas, promovendo a organização de inventários e auditorias internas e têm como objetivo a melhoria contínua. Podem também favorecer a diferenciação e permitir a entrada em mercados mais maturos e ajudam a projetar a região/país no mercado externo (PSVA, 2026).

O setor do vinho na UE é largamente dominado por micro e pequenas empresas, muitas com gestão familiar (CEEV, 2024). Em Portugal as micro e pequenas empresas representam mais de 95% da estrutura empresarial (Fontes e Bianchi de Aguiar, 2023; BP, 2024). A relevância socioeconómica destas empresas vitivinícolas torna crítico maior atenção a este segmento por parte do Estado e o desenvolvimento de ferramentas e métricas simples para apoio à gestão, nomeadamente para aspetos relacionados com a sustentabilidade na vinha e na adega (ex. uso de água, energia, gestão de águas residuais e emissões de CO2) (Pires, 2026; Saraiva et al., 2026; Karalis e Kanakoudis, 2023).

3. Programas de certificação e sustentabilidade em Portugal

Em 2013, a Comissão Vitivinícola Regional Alentejana lançou o Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo (PSVA), pioneiro a nível nacional na certificação da sustentabilidade das empresas vitivinícolas. O PSVA integra critérios ambientais, económicos e sociais, promovendo a melhoria contínua adaptada à realidade regional Alentejana (PSVA, 2026). O PSVA integra 725 membros, 28 dos quais certificados e 15.000 ha de vinha (cerca de 56% da área de vinha do Alentejo). Em 2023, surge o Referencial Nacional de Certificação de Sustentabilidade do Setor Vitivinícola (RNCSSV), da iniciativa conjunta do Instituto da Vinha e do Vinho (IVV) e da ViniPortugal, para harmonizar princípios e critérios de sustentabilidade a nível nacional (ViniPortugal, 2025). O programa conta com 75 empresas certificadas (ViniPortugal, 2026), estando outras em fase de preparação e auditoria. O Referencial permitiu alargar a certificação ao país e deverá beneficiar a imagem dos vinhos portugueses em mercados internacionais. Também a nível nacional, a região dos Vinhos Verdes tem desenvolvido as bases de um programa de sustentabilidade através do chamado Coletivo de Sustentabilidade da Região dos Vinhos Verdes para unir a fileira regional e promover a transição ambiental e digital do setor (AGROTEC, 2026). Para além dos referenciais nacionais, as empresas portuguesas mais exportadoras estão certificadas por programas internacionais (por exemplo, Fair’n Green, B Lab, NP EN ISO 14001:2006) (Figura 1). No caso do ISO 14001, a nova versão de 2026 reforça temas como alterações climáticas, biodiversidade, gestão de riscos ambientais e sustentabilidade na cadeia de fornecimento (KPMG, 2026).

Figura 1...
Figura 1. Exemplos de selos de sustentabilidade referentes aos dois programas de cariz nacional (PSVA e Referencial Nacional) (topo) e a programas /certificações de cariz internacional (Fair’Green, B Corp e ISO 14001) adotadas por empresas tipicamente exportadoras.

4. Gestão de água/águas residuais, energia e emissões de CO2

A par da gestão energética e das emissões de gases de efeito de estufa, a gestão eficiente de água/ águas residuais é uma componente básica da sustentabilidade das empresas vitivinícolas (Costa et al., 2020a; Oliveira et al., 2022; Matos et al. 2025; Pires 2026).

A gestão/monitorização do uso da água/águas residuais deve ser feita na vinha, na adega e na linha de engarrafamento. Considerando um sistema vinha-adega, com produção de uva em sequeiro, a vinificação e o engarrafamento surgem como os processos com maiores consumos de água e volumes de águas residuais gerados (Pires, 2026) (Figura 2), ao contrário de um sistema vinhas regadas, onde a pegada hídrica depende em 80% da rega (Matos et al., 2025). Contudo, há ainda limitações na monitorização e nas métricas dos gastos de água na vinha e adega (OIV, 2025) e na quantificação das águas residuais geradas que importa otimizar (Costa et al., 2020a; Pires, 2026) (Figura 2). Cerca de 70 % das empresas agrícolas em Portugal não dispunha de caudalímetros (FCG, 2020) e as que dispõem, têm um número limitado (por exemplo, um caudalímetro como contador geral), impedindo a deteção de pontos críticos de consumo e ineficiências (fugas). Além disso, a inventariação dos gastos de água, águas residuais produzidas e energia gasta é baseada em dados de faturação, o que condiciona a aferição de gastos pontuais (por exemplo, por equipamento) (Leitão et al., 2026; Vela et al., 2017), faltando históricos e auditorias energéticas (Ferreira, 2017). Estudos prévios mostraram que mais de 90% da energia consumida está associada à vinificação (Matos et al., 2025).

Figura 2...
Figura 2. Modelo concetual de um sistema integrado vinha-adega para aferir inputs e outputs relacionados com a gestão de água e de águas residuais na vinha e na adega (Baseado em Pires 2026).

5. Questões de sustentabilidade: água/águas residuais e energia em empresas da região de Lisboa e Setúbal

Nos estudos desenvolvidos no ISA em colaboração com micro, pequenas e médias empresas da região de Lisboa e Setúbal, verificou-se que a adesão a programas de certificação não é uniforme. A complexidade das normas impostas pelos programas e a necessidade de recursos adicionais (financeiros e humanos) para recolha e organização de dados, os custos com consultoria externa (que variam com o tamanho da operação) e os custos do programa adotado podem dissuadir as empresas (Correia, 2024; Leitão 2026). Além disso, as prioridades de cada agente económico dependem da sua equipa de gestão, formação dos quadros e objetivos em termos de adoção de boas práticas. Todavia, para microempresas de nicho, a certificação pode ser menos relevante, pois a venda/valor do vinho depende da história, do terroir e da empresa (Correia, 2024).

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Conclusões

A certificação para a sustentabilidade tem um papel estratégico no futuro do setor vitivinícola, cada vez mais competitivo e com desafios que requerem soluções adequadas a diferentes níveis (Quadro 1). A certificação das empresas vitivinícolas portuguesas enfrenta desafios, sobretudo devido à sua pequena dimensão e a limitações na organização interna (falta de inventários, ausência de sistemas informatizados de rastreabilidade) que limitam a gestão eficiente de recursos e transparência dos processos e a proteção ambiental. O setor nacional tem também falta de dados técnicos e financeiros detalhados que apoiem decisões de investimento, por exemplo, na certificação e em soluções técnicas para maior sustentabilidade.

Quadro 1...
Quadro 1. Lista não exaustiva dos principais desafios e soluções para a sustentabilidade do setor do vinho em Portugal (Fontes: Flores, 2018; OIV, 2021; 2025; Costa et al., 2016; 2020ab; 2022; Oliveira et al., 2022; Trindade, 2026; Saraiva et al., 2026; Leitão, 2026, Matos et al., 2025; Oliveira et al., 2024; Pires 2026; Prowine, 2026; Santini et al., 2025; Fontes e Bianchi de Aguiar, 2023; AICEP, 2026).

O futuro deverá passar pela disponibilização de ferramentas de gestão mais simples que apoiem as micro e pequenas explorações na gestão de recursos como água e energia. Os programas de sustentabilidade existentes são muito importantes, mas faltam ainda indicadores operacionais para a vitivinicultura de pequena/média dimensão. A proteção da paisagem deverá ser garantida atendendo à sua importância para o enoturismo, o qual tem contribuído cada vez mais para a rentabilidade da atividade (Quadro 1).

A digitalização é uma realidade na fileira e favorecerá a competitividade do setor (OIV, 2021). Todavia a investigação e o conhecimento agronómico e enológico e das respetivas tecnologias é crucial para melhorar a gestão de recursos na vinha e na adega (Quadro 1; Figura 3). A formação de quadros das empresas agrícolas e a transferência de conhecimento são objetivos da UE para aumentar a competitividade da agricultura europeia e tal importa reforçar no setor vitivinícola nacional (Costa et al., 2020b; AICEP, 2026). Deverão ser promovidas as oportunidades de transferência/aprendizagem entre pares, com visitas técnicas a vinhas e adegas e a feiras tecnológicas profissionais, nacionais e internacionais (Figura 3). Tal poderia ser dinamizado pelas CVRS e associações e/ou pela indústria auxiliar e prestadores de serviços (por exemplo, instalação de painéis solares, ETAR), atendendo ao desconhecimento de soluções práticas, em especial pelos agentes económicos mais pequenos.

Figura 3...

Figura 3. Boas práticas na vinha e na adega relacionadas com o uso mais eficiente e sustentável de água e de energia (caudelímetros, painéis fotovoltaicos na cobertura da adega) (em cima); ações de demonstração em campo sobre boas práticas na gestão do solo e água e sensorização (Projeto EU-NEFERTITI) e jornadas técnicas sobre sustentabilidade e tecnologias na Olitécnica-Enotécnica -Exponor (em baixo).

Referências

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