O aparato tecnológico existe e mostrou o melhor de si aos 5.500 visitantes profissionais durante a última FIMAP – Feira de Maquinaria Industrial, Biomassa, Tecnologia Florestal, Automação, Transformação de Madeira e Serviços Especializados, que reuniu na Exponor as novidades de 82 empresas expositoras, nacionais e internacionais, numa área superior a 17 mil metros quadrados. Mas, pelo muito que se ouviu de diversos especialistas durante o programa de conferências, que decorreu paralelamente à exposição, ainda há bastante por fazer no setor.
A mesa-redonda, organizada pela revista Agriterra, que debateu a resiliência e a competitividade da floresta foi paradigmática a esse nível. Luís Mira, secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Pedro Serra Ramos, presidente da Associação Nacional de Empresas Florestais, Agrícolas e do Ambiente (ANEFA), e Pedro Rocha, consultor em Sustentabilidade Territorial e Relações Urbano-Rurais, não se coibiram de apontar diversos paradoxos e de colocar outros tantos ‘pontos nos is’.
O líder da ANEFA falou com a propriedade de quem representa cerca de mil associados da área florestal, considerando que a floresta portuguesa continua presa a um “problema de valorização”, a vários níveis. Porque “não é com salários de 900 a 1200 euros que se atraem engenheiros e técnicos florestais para o setor e para o interior do País”. Ou seja, há que “mudar radicalmente a forma como atuamos sobre as profissões que permitem valorizar o setor florestal”. Pedro Serra Ramos acrescentou ainda: “Limpar terrenos não é fazer gestão florestal”; “a questão ambiental na fileira assegura-se com uma gestão florestal profissional”; “a indústria não mexe no preço da madeira há 20 anos, mas o custo dos fatores de produção não está estagnado, tem aumentado de ano para ano”; “neste momento, está a vender-se produto florestal abaixo do preço de custo – e isto não está a ser fiscalizado –, o que acontece porque as indústrias da madeira são muito fortes e dominam num mercado de quase monopólio”.
O “grande drama da gestão florestal” em Portugal, lembrou, por sua vez, o secretário-geral da CAP, “é que não pode haver um mercado que paga mais por madeira para queimar do que por madeira para finalidades mais nobres”.
“Cerca de 50% dos trabalhadores agrícolas na atualidade são imigrantes, dos quais 60% são asiáticos”, recordou Luís Mira, acrescentando à estatística uma interrogação: “Como é que se pode pagar mais aos trabalhadores se, no terreno, as operações não geram rendimento suficiente?”
O secretário-geral da CAP aludiu ainda à falta de continuidade política e de incentivos financeiros do Estado para o “trabalho de 20 anos” que os produtores agrícolas e florestais desenvolveram em prol da certificação ambiental, para agora “estar a deitar-se esse esforço janela fora”. Recordou também a mobilidade elétrica, que tem preocupado ambientalmente sucessivos governos, em contraste com a forma como a problemática dos fogos florestais se arrasta no tempo, não obstante os prejuízos para a atmosfera.
Para Pedro Rocha, consultor em Sustentabilidade Territorial e Relações Urbano-Rurais, parte do caminho passa por “perceber como mobilizar, com políticas e estratégias nacionais, as sociedades urbanas para os problemas daquelas mais próximas das florestas. A madeira que entra no circuito industrial não vai para o campo, vai sobretudo para as cidades. E os problemas da floresta não são exclusivamente de quem lá próximo vive – são problemas de todos”.
Na Exponor, foram quatro dias de negócios, com muito networking pelo meio, e 16 temas em agenda para responder às necessidades e aos desafios do setor, com a presença de todos os elos da fileira. O evento contou com importantes contributos dos principais operadores associativos da fileira económica, além dos empresariais: Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal (AIMMP); Forestis – Associação Florestal de Portugal; CAP; ANEFA; CoLAB ForestWISE – Laboratório Colaborativo para a Gestão Integrada da Floresta e do Fogo; e Abimota – Associação Nacional das Indústrias de Duas Rodas, entre outros.

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